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Capítulo 240 - Acho que participei da reunião de uma seita...

Para quem não me conhece mais a fundo, aviso logo que existem dois assuntos que me fascinam: seitas e drogas psicodélicas. Devoro absolutamente todos os documentários que aparecem na minha frente que tratam sobre essas temáticas. Acho que meu interesse por seitas aflorou depois que eu entendi os mecanismos de manipulação psicológica pelos quais eu passei quando estive num relacionamento abusivo. Eu não sou psicóloga, socióloga, ou nada disso para afirmar o que estou afirmando; mas do meu ponto de vista de uma vítima, eu percebi quem as ferramentas que um líder de uma seita utiliza são extremamente parecidas com aquelas de um abusador. E vou mais longe: seitas são fundadas em abuso psicológico e mental. Logo, eu criei uma empatia real com as vítimas de seita e fico deslumbrada com as manobras mentais que nossos cérebros são capazes de fazer para justificar as coisas mais tenebrosas (como jogar um bebê de dias de vida numa fogueira - exemplo real).  Quanto às drogas psicodélicas, foi...

Capítulo 239 - Vivíssima, graças a Deus

Eram pouco mais de seis da tarde quando Célia adentrou seu lar. No canto da única sala do pequeno apartamento, um singelo altar sustentava a imagem de Nossa Senhora Aparecida escavada em pedra-sabão e um rosário entalhado em madeira. Acima do altar, a imagem de Cristo crucificado; abaixo, uma almofada de veludo de cor azul turquesa, onde se ajoelhava todas as manhãs para agradecer ter acordado mais um dia e ainda ter vida. Apesar de Célia ter menos de sessenta anos e gozar de plena saúde, cumprira esse ritual religiosamente todos os dias. Após a morte repentina de seu esposo, Lúcio Heleno, de infarto aos quarenta e três anos, o ritual se intensificara. Agora ela agradecia de manhã e à noite, quando saía de casa e, também, quando retornava. Olhou para a santa, olhou para Cristo e agradeceu. Retirou os sapatos. Fechou todas as cortinas da sala e do quarto e se preparou para tomar banho. Tal qual o agradecimento às suas entidades, o ato de fechar as cortinas ao final do dia também se inst...

Capítulo 237 - O Fantástico Mundo da Realidade

Era uma manhã inacreditavelmente fresca de uma quinta-feira de dezembro quando Percival, ainda deitado na sua cama, pegou o celular. Sabia que esse era um hábito que deveria mudar. Ninguém pode começar o dia trabalhando ainda deitado, sem escovar os dentes, tirar as remelas dos olhos e tomar pelo menos uma xícara de café. E apesar de nos últimos dias ele ter conseguido segurar essa urgência até o momento de outra urgência no banheiro, hoje parecia que algo o chamava de dentro daquele aparelho. E não eram as notificações, pois ele as havia desativado todas. Era algo grande, que iria mudar sua vida. O símbolo da cartinha fechada na barra superior da tela indicava a presença de um e-mail não lido. Mas não era isso, isso não era novidade. Ele recebia mensagens e solicitações dos clientes todos os dias fora do horário de expediente. Jamais pensara que trabalhar com venda de mudas de suculentas o traria clientes tão fervorosamente ansiosos. Contudo, o trouxe, principalmente depois da hashtag...

Capítulo 236 - Pequenas grandes aventuras de mudança

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Já tinha comentado com vocês o meu desejo de voltar às origens desse blog. E não tem nada mais característico deste meu pequeno lote da webesfera do que coisas dando errado comigo ou me fazendo passar nervoso.  Como vocês já sabiam, eu me mudei para o Rio Grande do Sul faz pouquíssimo tempo (menos de uma semana). Saindo de um interior para outro interior nesse Brasilzão de proporções continentais, a viagem Lavras-Alegrete é composta de um trecho de ônibus (Lavras - São Paulo), um trecho de avião (São Paulo - Porto Alegre) e outro trecho de ônibus (Porto Alegre - Alegrete). Sim, é uma delícia realizar esse trajeto, comumente tendo que dormir por duas noites seguidas sentada numa poltrona ininclinável de ônibus. Eu não tenho mais condicionamento físico para fazer uma viagem desse porte. Da última vez que fui de Alegrete para Lavras nesse esquema, eu fiquei, sem brincadeira, quatro dias com dor na bunda, tendo que tomar relaxante muscular por um tempo não recomendado na bula do remédi...

Capítulo 235 - Recomeços

  (I) Numa cidade pequena do interior do Brasil, onde o ar, mesmo no centro da cidade, ainda era puro, onde não havia movimento algum de carros nas ruas aos finais de semana e os idosos punham suas cadeiras dobráveis na calçada à tarde para prosear sobre os dramas alheios, morava Nádia, uma moça nos seus vinte e poucos anos, com cabelos lisos e pretos, pele morena e olhos redondos, grandes e tão escuros que mal dava para distinguir a pupila da íris. Quem olhava fixamente para os olhos de Nádia relatava um certo desconforto, pois parecia encarar um buraco negro, o fim do mundo ou seus medos mais profundos. Em volta desses olhos místicos havia uma espessa camada de compridos cílios, que a fazia parecer estar constantemente usando maquiagem. Nariz levemente avantajado, corpo franzino, não muito desenvolvido e uma estatura mediana. Não era alta, mas também não era referência em baixeza. Alguns diriam que Nádia era bonita ao seu próprio modo.  Nádia residia num apartamento de médio...