Capítulo 235 - Recomeços
(I)
Numa cidade pequena do interior do Brasil, onde o ar, mesmo no centro da cidade, ainda era puro, onde não havia movimento algum de carros nas ruas aos finais de semana e os idosos punham suas cadeiras dobráveis na calçada à tarde para prosear sobre os dramas alheios, morava Nádia, uma moça nos seus vinte e poucos anos, com cabelos lisos e pretos, pele morena e olhos redondos, grandes e tão escuros que mal dava para distinguir a pupila da íris. Quem olhava fixamente para os olhos de Nádia relatava um certo desconforto, pois parecia encarar um buraco negro, o fim do mundo ou seus medos mais profundos. Em volta desses olhos místicos havia uma espessa camada de compridos cílios, que a fazia parecer estar constantemente usando maquiagem. Nariz levemente avantajado, corpo franzino, não muito desenvolvido e uma estatura mediana. Não era alta, mas também não era referência em baixeza. Alguns diriam que Nádia era bonita ao seu próprio modo.
Nádia residia num apartamento de médio porte no centro da cidade, dois quartos, um banheiro, relativamente moderno, mas sem elevador, fazendo a tarefa de subir e descer os quatro andares com compras e malas excessivamente aeróbica. Ainda respeitando os costumes deveras enraizados, os idosos que ocupavam o edifício ainda colocavam suas cadeiras dobráveis na calçada aos finais de semana, transformando o local num ponto de encontro bastante inusitado para a terceira idade. Tanto a entrada quanto as vias internas do edifício eram repletas de plantas em vasos postos ao chão ou pendurados na parede, e os cachorros, de rua e das casas, circulavam livremente nos corredores, por vezes adentrando as moradias alheias.
Nádia cursava pedagogia em uma universidade pública que havia na cidade. Não fora sempre o sonho de Nádia ser pedagoga. Na verdade, seu sonho era cursar administração pública e poder atuar junto aos órgãos públicos implementando políticas para melhorar a vida de cidadãos vulneráveis. Mas a ausência deste curso na universidade local, aliada à falta de condições financeiras para possibilitar uma mudança para uma cidade onde o havia, culminou em Nádia cursar pedagogia. Não o fazia com gosto. Era visível em uma conversa de poucos minutos que ela apenas tolerava o curso, pois a alternativa de se contentar com um emprego que exigisse apenas o Ensino Médio era ainda mais inconcebível para ela. Pagava mal, pior do que pedagogia. Resignou-se. Já com pouca idade, Nádia percebera que, muitas vezes, o melhor que podia fazer era se resignar com o que dava para ter.
Os desavisados, neste momento, devem estar pensando que, pelo menos, Nádia tem como benesse o fato de comer comida caseira todos os dias no almoço, sendo uma enorme vantagem gastronômica e tática em relação ao universitário que mora sozinho e se vê obrigado, pelas circunstâncias temporais e monetárias, a almoçar e jantar um variado cardápio de macarrões instantâneos. Desavisados ou leitores privilegiados, que cresceram num lar com boa comida caseira. Não era o caso de Nádia. As raízes árabes de sua mãe, Janine, apenas se mostravam presentes no fenótipo, pois nas habilidades culinárias elas estavam tão longe que se encontravam em outro continente que não a América ou a Ásia. Não que Janine soubesse cozinhar comidas de outros continentes. Não sabia cozinhar e ponto final.
Nádia demonstrava pouquíssimo ou nenhum interesse em aprender a cozinhar, logo, os almoços naquela casa se bastavam a comidas compradas na sessão de congelados do mercado acompanhados de uma folhagem recém lavada. Vez ou outra, Janine se aventurava em fazer algum prato que vira num vídeo de trinta segundos na rede social e achara que levaria o mesmo tempo para executá-lo. Com expectativas irreais e uma boa dose de impaciência, as comidas invariavelmente ficavam intragáveis, às vezes se transformando na própria Índia tamanha a diversidade de temperos utilizados.
De toda forma, raramente era uma tarefa prazerosa a de se alimentar naquela casa. Toda vez que assistia Nádia engolindo a comida a seco, ou com um ou dois copos de suco de caixinha para fazê-la descer, Janine bradava que não tinha obrigação de saber cozinhar. Era contadora. Obrigação não tinha, mas faria felizes seus pais em ver a tradicional culinária familiar sendo passada adiante. “Faria” no futuro do pretérito, independente do tempo verbal da narração, pois estavam ambos mortos, o que tornava a felicidade de ambos uma impossibilidade. A mãe de infarto fulminante por não conseguir superar o elogio de Janine à famosa esfirra de cheddar com massa folhada de uma rede de fast food árabe fundada por um português no Brasil. O pai por recusa de viver sem sua companheira de toda vida, foi-se após três semanas. Não fora nada fácil para Janine perder ambos em tão pouco espaço de tempo, mas, de certa forma, aproveitou a elaboração de um luto e elaborara logo dois. Fora mais fundo no poço da depressão, mas economizara tempo mais adiante. Só aguentara mesmo porque tinha que cuidar de Nádia sozinha, pois marido também não tinha. Não era falecido, apenas não se importara com o papel de pai e tomou longo rumo ao saber da gravidez. Janine nunca mais o vira, Nádia sequer chegara a o conhecer. Quando nascera, o inominado já deveria estar do outro lado do planeta ignorando a responsabilidade parental.
Apesar dos pesares, Janine e Nádia levavam uma vida tranquila. Janine trabalhava no banco, tinha cargo concursado, portanto era despida da incerteza do salário no mês seguinte, mas era bastante vestida da certeza de que o salário seria sempre o mesmo e de nada grandioso valor. Justamente por isso, a notícia de que Nádia escolhera cursar pedagogia onde moravam a tomou de um enorme alívio. Mas isso já era do conhecimento do leitor.
O que ainda não era do seu conhecimento é que Nádia ia de bicicleta para a faculdade todos os dias. Nas manhãs de verão, o exercício a fazia chegar com manchas de suor embaixo dos dois braços e um leve cheiro azedo que só ela não percebia que exalava. E, claro como a luz do dia, nenhum dos seus chamados amigos tinha também coragem de avisar. Curiosamente, toda vez que adentrava os muros da faculdade, Nádia era acometida por um desejo inexplicável de tomar suco de maracujá. Jamais fizera a associação do cheiro da fruta com o do seu próprio corpo.
Também é novidade para o leitor que Nádia sempre que podia passava horas encarando peças de granitos, mármore e de madeira, procurando os mais diferentes objetos e animais impressos nos padrões naturais. Talvez não horas seguidas, mas, minutos, sim. E, se juntar todos os minutos que ela já investira nessa atividade durante sua vida, definitivamente atingia-se o patamar das horas. “Cachorro de monóculo”, ela vira hoje pela manhã no banheiro da faculdade. “Aqui estão bem nítidas as orelhas, o focinho e em volta desse olho aqui tem um monóculo”. Nádia não comentava seus achados gráficos com ninguém, por medo de ser julgada como esquisita. Ela já tinha lido sobre pareidolia e sobre procurar rostos e padrões em nuvens, mas ver um cachorro de monóculo no granito do banheiro não tinha muita explicação embasada na evolução. Então ela ficava quieta. Convenhamos, era melhor mesmo.
Seu namorado, Vitor, por exemplo, estava alheio a sua mania, mesmo o relacionamento já perdurando quatro anos. Se conheceram no colégio, paixão arrebatadora adolescente e cheia de hormônios. Mas hoje Nádia olhava para Vitor e não via nada além de um menino bacaninha. Não que houvesse algo de errado com Vitor, ele era um cara relativamente bonito, inteligente, carinhoso e não ligava para o cheiro de maracujá de Nádia ciclista. Ela só achava que não gostava tanto dele quanto deveria gostar. Nádia também se perguntava se existia isso de quantidade de amor que a gente deveria ter por alguém para namorar essa pessoa. Também se perguntava qual era a régua utilizada para medir esse amor. Nádia não tinha resposta para pergunta alguma. Vitor era seu primeiro namorado, então achava que isso que ela vivia era amor.
Nádia também não tivera grandes amigas antes de Mônica, então achava que o que sentia por ela era uma intensa amizade. Uma amizade que a fazia sorrir um sorriso largo e sincero toda vez que a via, que fazia as suas bochechas corarem e uma corrente de eletricidade percorrer o seu corpo quando Mônica a tocava displicentemente e o cheiro de pitanga de seu perfume atingia suas narinas. E, deveria ser normal também, começar a sonhar que beijava a sua amiga intensa e fervorosamente. Bom, a Nádia achava que sim. Mas parece que Nádia não tinha coragem de falar para as pessoas o que ela realmente sentia ou a confusão que estava dentro da sua cabeça, porque escolhia, dia após dia, se perpetuar nessa situação morna, bege, sem graça, com um meio sorriso no rosto, como se tudo estivesse na mais pura tranquilidade.
Mas não na noite de hoje. Deitada na sua cama, Nádia não conseguia parar de pensar um minuto sequer sobre essa sensação persistente em segundo plano de que vivia a sua vida pela metade, em suspenso. Ela só queria começar de novo, se esforçar para ouvir seus sentimentos com acuidade e escolher seguir por caminhos diferentes daqueles que seguira. Não que esse caminho fosse de todo ruim, mas não podia ser considerado bom. Não tem como ser bom um caminho regido pela completa apatia, sem a vontade de vivenciar a rotina. Nádia sentia que vivia incompleta, ou ainda, que não tinha de fato vivido. Hoje, desejava ardentemente que acontecesse algo que mudasse completamente o rumo de tudo, se indagando o que precisava acontecer para que ela tivesse a oportunidade de viver de novo, de viver mais, de viver pela primeira vez. Terminou a ruminação mental desejando que no dia seguinte fosse atropelada e perdesse a memória. Isso, sim, seria um recomeço digno de nota.
Só que o mundo, às vezes, nos prega peças difíceis de interpretar, como quando a casca de feijão, desavisada da sua inconveniência, persiste nos dentes por todo o expediente pós-almoço e o dono dos dentes só percebe sua presença ao voltar para casa. Seria essa uma peça irônica, uma comédia ou um drama? Teria a personagem algo a aprender com a situação ou seria apenas pura maldade do roteirista? Ou, quem sabe, fosse o acaso mostrando as caras, jogando as personagens em situações absurdas sem absolutamente nenhum propósito? Bom, essa última suposição é mais difícil de se concretizar numa obra literária, principalmente tendo em vista os custos de impressão. Palavras são sagradas, preciosas e caras.
Pois bem que, no dia seguinte a esse exercício tortuoso de imaginação, uma manhã absolutamente normal, Nádia se vestiu normalmente, tomou seu café da manhã normalmente, composto por uma torrada de pão de fôrma com requeijão e uma xícara de café coado que Janine normalmente fazia direito, pegou sua bicicleta na garagem do prédio como normalmente fazia e seguiu seu caminho normal para a faculdade. Só que nesse dia normal, Nádia teve o azar de esbarrar com uma pessoa que não estava tendo um dia normal, pois havia brigado com o cônjuge antes de sair de casa e, distraída em suas emoções, ultrapassou o sinal vermelho. Atingiu Nádia ciclista com cheiro de maracujá em cheio, que caiu e bateu a cabeça no asfalto. E essa foi a peça que o mundo pregou em Nádia.
Acordada no quarto do hospital, foi prontamente informada que já era o dia seguinte. Porém, Nádia não se lembrava que dia havia sido o anterior. Os médicos perguntaram se ela se lembrava quem ela era; não tinha ideia. Janine foi visitá-la; teve breve lembrança. Vitor entrou no quarto; não o reconheceu. Mas quando Mônica chegou e o seu cheiro de pitanga adentrou o quarto, seu coração bateu mais rápido, suas bochechas coraram e seu corpo suou um suor de maracujá e, naquele momento, lembrou que aquele era o amor de sua vida. E esquecendo-se também que vivia em uma cidade pequena e cheia de julgamentos, ao sair dali declarou-se para Mônica, assumiu o relacionamento para sua mãe que estava voltando a conhecer, para seus novos velhos amigos e para Vitor, só por consideração, porque ouviu dizer que tinha namorado com ele por um bom tempo. E assim, como num capricho do roterista, começou a história de amor de Nádia e Mônica
(II)
Desperta de mais uma noite de ruminação mental, Nádia levantou-se e se arrumou para a faculdade. Sentou-se à mesa vazia, pois sua mãe já saíra para o trabalho, serviu-se de uma xícara de café hoje extremamente amargo e bebericou-o enquanto esperava o pão de fôrma pular da torradeira. Passou requeijão na torrada ainda quente e a devorou em apenas três mordidas. Pegou a sua bicicleta na garagem do prédio e pedalou até a universidade. Chegou levemente atrasada à sala onde teria sua primeira aula do dia. Sentiu vontade de beber suco de maracujá, mas a reprimiu.
Passou uma centena de minutos olhando fixamente para a professora e acenando positivamente em momentos oportunos, enquanto por dentro se perguntava por que a sensação de que estava desperdiçando a sua vida fizera morada em sua mente. No intervalo entre aulas, sucumbiu ao seu diário desejo e foi à cantina beber um suco de maracujá. Lá, encontrou Vitor, recém-saído e revigorado por uma aula de História da Filosofia Moderna. Cabe aqui contar fato que se tornara óbvio ao leitor com a frase anterior de que Vitor estudava na mesma universidade de Nádia. Porém, ao contrário de sua namorada, Vitor cursava aquilo que queria. E o que ele queria era Filosofia. Ao contrário de Vitor, nem Nádia, muito menos os pais de Vitor, queriam que ele cursasse Filosofia. Pagava mal, talvez pior que um emprego de Ensino Médio.
Mas esse parecia desde sempre o destino de Vitor Augusto, um menino naturalmente questionador e extrovertido. Quando criança, passava horas deitado na cama de barriga para cima, mãos entrelaçadas repousando em cima do abdômen, questionando-se de que se toda regra possui sua exceção, talvez a exceção para essa regra fosse ela mesma, logo, nem toda regra teria sua exceção. Ou nenhuma regra teria sua exceção? Não sabia. Era por demais imaturo para entender os conceitos de paradoxo e lógica matemática.
Estava no último ano do ensino médio quando resolveu deixar crescerem suas madeixas, aboliu o uso de sapatos fechados e materiais de origem animal e comprou uma bolsa estilo carteiro feita de couro ecológico. Nádia não sabia se gostava desse novo visual. Definitivamente não gostava dos pés constantemente sujos que Vitor não fazia questão de lavar antes de se deitar na cama. Também não gostava do cheiro que seus cabelos exalavam após o terceiro dia de banho sem usar shampoo, condicionador, sabonete ou qualquer produto que os higienizasse. Talvez precisasse de algum tempo para se acostumar. Já fazia dois anos.
Cumprimentaram-se com sorrisos, o dela tímido, o dele largo, e encaminharam-se à primeira mesa vazia que avistaram. Nádia tentava equilibrar o copo com suco de maracujá na bandeja juntamente com o seu croissant, enquanto Vitor levava um copo de refresco de caju e uma coxinha de frango, um em cada mão. Mesmo não utilizando materiais de origem animal, hipocritamente Vitor ainda consumia carne. “Uma coisa de cada vez”, ele bradava. Andava despreocupadamente, salpicando de refresco os seus pés quase descalços, e criando a base rítmica de uma melodia a cada passo que dava, com as batidas cadenciadas da sua bolsa carteiro já puída no seu quadril. Pá, pá, pá, pá. Três por quatro.
Vitor deu uma generosa mordida na coxinha de frango e, inadvertido, começou a mastigar a comida com um pedaço de frango desfiado pendurado para fora de sua boca. Nádia observava a cena intrigada, sem saber se avisava Vitor, correndo o risco de o constranger, ou se aguentava ela sozinha o constrangimento de assistir àquela cena. Sentiu uma pontada de nojo e se perguntou se estava virando vegetariana, tendo nojo de frango. Olhou para o seu croissant de presunto e queijo e o abocanhou. Não sentiu nojo do presunto. “Deve ser só o frango mesmo”, atestou. Nádia se perguntou se viraria vegetariana de frango. Ou vegetariana de Vitor.
Com movimentos de lábios e língua, Vitor levou o pedaço de frango que ficara para fora da boca para seu interior, expondo parte do conteúdo já mastigado e parcialmente digerido pela amilase. O estômago de Nádia revirou. Engoliu o seu pedaço de croissant com um generoso gole do suco de maracujá. Ela, que ainda não tinha conseguido decifrar seus sentimentos, vendo inúmeras e inéditas combinações de pedaços de comida sendo rotacionados dentro da boca de Vitor, como roupas numa máquina de lavar de abertura frontal, internamente tentava se recordar se Vitor sempre mastigara de boca aberta e ela que nunca tinha reparado ou se era uma novidade que ele trazia para o já desgastado relacionamento, como o cabelo comprido sem lavar e os sapatos abertos. Vitor adicionou mais uma camada de texturas ao dar um gole no refresco de caju ainda com a boca cheia de frango, engoliu parcialmente a massa que havia se formado e se preparou para falar. Nádia achou que um pedaço de frango voaria em sua direção, mas o que a atingiu, na verdade, foi um golpe mais subjetivo.
— Nádia, estou apaixonado por outra pessoa.
Não chegou como um soco ou um cassetete na nuca capaz de desacordar o indivíduo, mas, pelo contrário, como um tapa na cara usado para tirar uma pessoa dos estados de histeria ou catatonismo.
Acordou.
Esforçou-se para reagir como imaginava que dela era esperado nessa situação. Perguntou por que, perguntou quem, perguntou como, perguntou quando. Não tem motivo, só aconteceu. A Tati, da classe dele. Se deixou levar. Já tinha uns dois meses e muitas conversas filosóficas sem utilitarismo envolvidas.
Nádia chorou um choro sem lágrimas. Choro de espanto, de ego ferido e de medo da solidão. Ao final de sua apresentação cênica, disse que entendia, que desejava que fossem felizes, que amar é deixar ir. E o deixou ir. Abraçaram-se com ternura, com fiapos de frango ainda nos dentes e com cheiro de maracujá.
Ele seguiu seu caminho para a aula com o coração leve e o corpo tomado de uma alegre perspectiva de se envolver de alma, mente e, finalmente, de corpo, em uma paixão arrebatadoramente instigante. Ela devolveu a bandeja na cantina e foi para o banheiro. Lavou o rosto. Estava acordada. Finalmente estava acordada. E estava livre. Pegou seu telefone e mandou um convite à Mônica em forma de mensagem. Sorvete após o almoço. Sim.
E assim, entre sorvetes sendo deglutidos entre lábios devidamente e educadamente fechados, começou a história de amor de Nádia e Mônica.
(III)
Mais uma noite, mais uma manhã. Nádia levantou-se, vestiu-se, tomou café, comeu torrada ainda quente com requeijão, pegou sua bicicleta e pedalou até a universidade. Atrasou-se levemente. Suou e sentiu vontade de beber suco de maracujá.
Entrou na sala de aula. Teve uma crise existencial de cem minutos. No intervalo, foi para a cantina. Comprou croissant de presunto e queijo e suco de maracujá. Encontrou Vitor. Gotas de refresco de caju caíram no seu pé sujo e sua bolsa carteiro batia no seu quadril em um barulho ritmado. Sentaram-se. Vitor mastigou sua coxinha de frango com a boca aberta e um pedaço de frango ficou parcialmente para fora. Nádia sentiu nojo. Vitor se preparou para falar.
— Nádia, eu vou me mudar.
Nádia foi retirada do transe em que se encontrava por essa informação inesperada. Frequentava a casa de Vitor e de seus pais e não percebera nenhuma movimentação no sentido de mudança. Nenhuma caixa de papelão, nenhum comentário de insatisfação com a moradia. Apenas que seria bom ter uma piscina para se refrescarem nos verões cada vez mais quentes. Perguntou-se se iriam para uma casa com piscina e agradeceu internamente a possibilidade da afirmativa. Como ela e Janine não teriam condições financeiras de morar em um local com piscina tão cedo, ter um namorado cuja casa tinha piscina já ajudava e muito. Ou será que Vitor sairia da dependência dos pais e moraria sozinho? Vitor constantemente comentava que não se sentia à vontade de depender tanto dos seus progenitores e provedores.
— Nádia, eu vou me mudar de cidade.
Nádia se perguntou o que motivara essa decisão, se seria uma oferta de emprego ou uma pós-graduação adiantada. Nádia também se perguntou se Vitor esperava que ela se mudasse junto com ele para outra cidade. Considerava-se muito nova para se casar, acabaria por se tornar mãe de um marmanjo que jamais pusera a própria roupa suja para lavar dentro da máquina. Mas, se fosse uma cidade no litoral, Nádia estaria disposta a ir, a ensinar ao seu cônjuge os tortuosos caminhos do serviço doméstico desde a mais básica das lições. Lavando louça. Como segurar numa vassoura. Jogando fora alimentos com prazo de validade vencido. Poderia ser uma cidade onde pudesse continuar a sua carreira já iniciada em pedagogia, ou, melhor ainda, poderia ser uma cidade onde houvesse o curso de Administração Pública, onde ela pudesse finalmente seguir com a carreira dos seus sonhos. Não era uma má ideia, no final das contas. Acabaria por se adaptar e seria feliz.
— Nádia, eu vou me mudar de país.
Essa seria uma situação um pouco mais complicada, mas nem tudo estava perdido. Nádia arranhava no inglês e se comunicava muito bem em espanhol. Seria uma excelente oportunidade para se tornar fluente em outro idioma, caso Vitor não fosse para outro país lusófono. Nádia começou a sonhar com as possibilidades. Bom seria se fossem para a França. Imaginou-se vestindo sobretudos de tweed e boinas vermelhas, e tendo uma conversa similar com um pedaço de salgado francês pendurado para fora da boca de Vitor, enquanto ela comia um croissant tradicional e original, perfeitamente folhado, crocante e amanteigado, porém sem deixar os dedos entupidos de gordura. Nessas circunstâncias, seria mais difícil continuar a sua carreira, mas viver em outro país e aprender francês certamente abriria outras portas quando voltassem ao Brasil. Não seria o fim do mundo.
— Nádia, eu vou para a Rússia, mais especificamente para a Sibéria. Consegui uma bolsa de doutorado em um centro de pesquisa que estuda mudanças climáticas. O que, a princípio, não parece ser relacionado com a minha graduação pela metade em filosofia. E não é mesmo. Acontece que, eu nunca te contei isso, mas, nas horas vagas, eu aprendi a programar muito bem e atuei como hacker. Em uma dessas ações, o governo russo me descobriu e, também nunca te contei isso, mas eu também sei falar russo. Eles me cooptaram para auxiliar nessa pesquisa que necessita de conhecimentos avançados em programação e lógica boolena. E, claro, em russo. Em troca, eu pulo a graduação e o mestrado e já recebo um diploma de doutor, além de não ir preso. — Nádia tentava assimilar todas as informações ao mesmo tempo, seus olhos inquietos fazendo movimentos de um lado para o outro da órbita. Falhava miseravelmente. — Apesar de ser um centro de pesquisa de excelência, a comunicação com a comunidade externa é extremamente limitada por questões de desenvolvimento estratégico e soberania nacional. Entendo que seria muito da minha parte pedir para que você se mude para a Sibéria comigo, sem falar russo, sem poder continuar seus estudos, sem nenhuma perspectiva de ter uma carreira ou autonomia e, por fim, sem qualquer tipo de comunicação com a sua mãe por meses. Então eu estou indo sozinho. — Nádia abriu a boca para falar, mas só teve tempo de puxar o ar para dentro. — Também acho que não estou em posição de recusar ou negociar essa proposta com o governo russo. Minha passagem de avião é para a noite de hoje. Em poucos minutos, um carro da embaixada russa passará na minha casa para levar a mim e meus poucos pertences para o aeroporto mais próximo. Sinto muito ter que encerrar nosso relacionamento dessa forma, mas é melhor terminarmos por aqui mesmo, para evitar a dor futura. Vou ficar incomunicável por meses, talvez por anos. Não sei sequer se iremos nos ver novamente nessa vida. Te desejo sorte.
Choro sem lágrimas de medo. Desejos de felicidade. Abraço com ternura. Foi embora para sempre. Nádia foi ao banheiro e lavou o rosto. Estava acordada. Estava livre. Enviou uma mensagem para Mônica. Cinema. Comédia. Estava precisando.
E assim, entre risadas e pipocas, começou a história de amor de Nádia e Mônica.
(IV)
Acordou cansada. Café? Melhor não. Nem chá. Não saberia que efeitos poderiam ter diferentes ervas. Água e torrada ainda quente com requeijão. Bicicleta. Exercícios leves nunca fazem mal. Universidade. Aula. Crise existencial. Intervalo. Cantina. Vitor. Refresco no pé sujo. Bolsa irritante. Frango. Nojo. Vitor se preparou para falar. Mas quem falou foi Nádia.
— Vitor, minha menstruação está atrasada. Ela nunca atrasa.
Espantaram-se ambos. Ela, pois a apática rotina a havia carregado até a metade do mês sem que tivesse percebido a cadência do tempo. Ele, pois, nas cada vez mais raras e mornas ocasiões em que os namoricos ultrapassavam as barreiras têxteis, sempre o fizeram com proteção. Vitor questionou-se se o preservativo estava furado ou se ficara muito tempo guardado e perdera a eficácia. Provavelmente a segunda alternativa. Neste momento, toda a sua tão cuidadosamente construída linha filosófica esvaiu-se do seu ser e Vitor começou a se questionar não mais a existência de Deus, mas se Ele resolvera operar um milagre em sua namorada.
A urgência em se resolver essa imprecisão era grande. Não terminaram de comer. Indigestão, glote fechada. Rumaram da faculdade em direção à farmácia, no lado oposto da rua. A bolsa puída de couro ecológico batendo ritmadamente nos quadris de Vitor apenas serviu para aumentar ainda mais o estado de estresse de Nádia.
Pegaram o teste na prateleira e se dirigiram ao caixa. A atendente estava grávida. “Seria isso um sinal?”, Nádia se perguntou. “Não, apenas coincidência”, ela mesma se respondeu.
Certa de que este não era um procedimento a ser realizado na faculdade, Nádia resolveu ir para o conforto do seu lar. Aproveitaria que sua mãe ainda estava no trabalho e faria o teste com privacidade. Dispensou Vitor. Ainda na farmácia, mandou mensagem para Mônica. Precisava de apoio, mais do que de privacidade. Precisava de privacidade de Vitor. Queria estar longe dele quando o resultado viesse à tona para evitar que quaisquer reações espontâneas e indesejadas alterassem o rumo planejado para a situação. Queria estar longe de Vitor também para planejar os rumos das possíveis situações.
Chegou ao bicicletário esbaforida e, enquanto desatava o cadeado de sua bicicleta, percebeu ao seu lado uma ciclista visivelmente grávida. “Sinal?”, perguntou-se novamente. “Não, mais uma coincidência”, convenceu-se. Pedalou rapidamente para casa com o intuito de economizar o máximo de tempo possível para gastá-lo surtando com calma. Ao chegar ao seu andar, encontrou sua vizinha de porta, Michele. Grávida. “Sinal?”, perguntou-se pela terceira vez. “Não”, respondeu-se, “Paranoia”, completou. Michele já estava grávida oito meses antes da sua própria suspeita surgir.
Adentrou sua casa e deixou-se cair em queda livre no sofá. O pranto, que antes Nádia sufocara, agora a sufocava. Poucos minutos se passaram quando o interfone tocou. Nádia ainda em meio a soluços acionou a abertura do portão para Mônica. Alguns passos ruidosos na escada e Mônica já a abraçava em seu apartamento, entre lágrimas, soluços, cheiros de maracujá e pitanga. E o sorriso do tamanho do mundo que nunca deixava a sua feição.
Emoldurado por fartas bochechas salpicadas de covinhas em ambos os lados, o sorriso de Mônica chegava aos ambientes antes do restante do seu ser. Juntamente com uma condição de vida bastante confortável, Mônica recebera de seus pais uma criação com rigidez e disciplina militares. Apesar de sua mãe controlar toda e cada caloria que adentrava o seu corpo, Mônica passara a infância crescendo mais para os lados do que para cima. Não podia tirar nota diferente de 10 no boletim. Fazia curso de inglês, depois de espanhol e depois de francês, natação e violão. E não podia ter covinhas. As covinhas eram para sua mãe o atestado de seu fracasso impresso e esfregado na sua cara. Ou na de Mônica.
Mônica tinha dois irmãos mais velhos, casados e independentes financeiramente. Recebera deles a proteção e afeto que hoje, após muita terapia, acreditava dever ter recebido dos pais. Toda vez que sua mãe a tentava destruir, seus irmãos coletavam seus cacos e colavam-nos de volta no mosaico mais lindo que Nádia já vira em toda a sua vida. Um mosaico sorridente, roliço, com covinhas nas bochechas e cheiro de pitanga.
Desvencilhou-se dos braços de Nádia e a ofereceu um copo d’água.
— Não estou com sede.
— É para o teste.
Sentaram-se à mesa da cozinha. As lágrimas insistiam em brotaram dos seus olhos e rolar a face de Nádia, misturando-se com suor, saliva e coriza. Era hora de planejar os tais rumos.
— Aquela alternativa? — Mônica arrancou o curativo com força e sem delongas.
— Não — Nádia balançou a cabeça de um lado para o outro —, essa não é para mim.
— Casamento, então? Morar juntos?
Casar na igreja ou no papel nunca estivera nos planos ou sonhos de Nádia e, nem sua mãe, nem os pais de Vitor eram esses tipos de pais. Muito provavelmente morariam juntos.
— Por que?
— Oras, por que não?
Nádia e Vitor estavam juntos há anos, davam-se relativamente bem, tinham uma relação tranquila. Pelo menos era assim que as pessoas de fora do relacionamento os viam. E agora teriam um laço eterno. Quem sabe dando banho no filho, Vitor não aprenderia como lavar o próprio cabelo e não mais exalaria cheiro de cachorro molhado? Ou acompanhando o desenvolvimento oral do filho, começasse a mastigar de boca fechada? Ou assistindo ao filho brincando no quintal de casa e voltando para dentro de casa sujo de lama e grama, passasse ele mesmo a lavar os próprios pés antes de se deitar na cama?
Laço eterno com Vitor.
Mais lágrimas rolaram por seu rosto. E lá se foram um, dois, três copos d’água para dentro, um, dois, três copos de lágrimas para fora. A bexiga apertou. Foi para o banheiro com cara de choro. E com cara de choro saiu do banheiro.
— Desespero ou alívio? — Mônica perguntou.
— Positivo.
Desespero. Desesperou-se. Logo acalmou-se. Ou melhor, Mônica a acalmou, com seu abraço apertado e seu cheiro de pitanga. Ligou para Vitor. Vitor não atendeu. Ligou para sua casa. Não estava. Viajou.
— Assim sem dar notícia?
— Assim sem dar notícia. Só chegou em casa, pegou umas camisetas, umas cuecas, colocou na mala e saiu. Disse que voltava em uns dias ou meses. Mas não deve demorar muito, não levou cartão de crédito, nada.
A falta de meios de se sustentar não era planejamento, mas, sim, a falta dele. Desespero. Vitor jamais voltou. Ficou vagando pelo mundo. Andarilho. Sem cartão de crédito, sem identidade. Sem passado e nem futuro. Como num lapso de criatividade, o roteirista repetia a história.
Desligou o telefone em estado pré-catatônico. Mônica a colocou em seu colo e acariciou seus cabelos negros.
— Vou viver com você e te ajudar a criar essa criança.
— Como amigas?
— Se assim você quiser.
— Como assim?
— Como você quiser.
E assim, entre fraldas, papinhas e chupetas, começou a história de amor de Nádia e Mônica.
(V)
E com cara de choro saiu do banheiro.
— Desespero ou alívio? — Mônica perguntou.
— Negativo.
Alívio. Suas lágrimas secaram. Ligou para Vitor, que atendeu prontamente.
— Graças a Deus, não era a hora — proferiu o crente Vitor. Uma experiência provou-se valer mais do que quatro semestres no ensino superior.
Despediu-se de Mônica com aperto nos corações e declarou-se de folga no restante do dia. Havia vivido três vidas diferentes em uma só manhã, estava fatigada. Comprou uma lasanha sabor quatro queijos congelada no mercado ao lado e serviu-a com batata palha à Janine no almoço. Tudo melhorava com batata palha e com Janine. Passou o resto do dia calada, prostrada na cama, imersa em si mesma. Naquele dia, dormiu uma noite bem dormida, um sono profundo de exaustão.
Acordou no dia seguinte descansada. Pegou sua bicicleta na garagem do prédio e pedalou rumo à universidade. Parou em uma padaria no trajeto. Pão na chapa com manteiga e achocolatado quente. Chegou adiantada, mas não assistiu a primeira aula. Foi para a cantina. No intervalo, encontrou Vitor. Sorriso no rosto e abraço demorado de alívio mútuo. Vitor comprou um pão de queijo e um refresco de guaraná. Sentou-se, deu uma mordida no salgado e se preparou para falar. Mas, novamente, quem falou foi Nádia.
— Vitor, não podemos mais ficar juntos.
O sorriso de Vitor foi substituído pelo choro. Perguntou como, perguntou por que, assim, sem aviso. Achava que estava tudo bem. Estava tudo bem, mas Nádia não gostava dele tanto quanto deveria. Não era justo. Ela gostava de Mônica.
— Você é lésbica?
— Não sei, talvez. Talvez bi. Ainda não sei.
Se abraçaram, choraram. Nádia chegou em casa com os olhos inchados. Janine não entendeu, achou que fossem se casar. Nádia não sabia explicar, não queria explicar. Estava triste, mas seu coração estava mais leve. Era uma sensação nova, esquisita. Talvez estivesse viva.
Ligou para Mônica. Convidou-a para sua casa. Contou tudo, tudo mesmo. Do cabelo com cheiro de cachorro molhado, dos pés sempre sujos, das covinhas, do cheiro de pitanga, dos seus sonhos. Mônica nunca tinha gostado de meninas, não assim. Mas gostava de Nádia. Tinha medo da reação de seus pais. Precisaria ser escondido, pelo menos por enquanto. Pelo menos terem certeza do que sentem.
Os olhos de Nádia não estavam mais inchados. Janine entendeu.
E assim, entre aspirinas, medos e incertezas, começou a história de amor de Nádia e Mônica.
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