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Mostrando postagens de 2021

Capítulo 229 - O fascínio pela falta de controle do tempo

Fim de semana passado eu assisti "O mapa das pequenas coisas perfeitas", um filme ao melhor estilo Sessão da Tarde, com aquela temática bem batida de anomalia temporal, onde um personagem vive o mesmo dia diversas vezes seguidas, enquanto para todos os outros seres humanos aquele dia é inédito e único. Sim, quase o mesmo enredo d'O Feitiço do Tempo, inclusive esse último filme é citado diversas vezes pelos personagens, como uma forma de fazer graça de si mesmo. Genial. A diferença é que, n'O mapa, existem dois personagens que estão presos nessa anomalia conscientemente. Claro que seriam uma menina e um menino brancos e que acaba rolando um romance entre eles, porque Hollywood parece que simplesmente NÃO CONSEGUE colocar um homem e uma mulher brancos e não fazer os dois tentarem se beijar no meio da trama (mas isso é assunto para outro post). E eu me peguei pensando sobre esse fascínio que eu tenho pela temática do tempo. Me sugere um filme que tem anomalia temporal no...

Capítulo 228 - Mais importante do que ter planos

Esses dias estava filosofando com um amigo a respeito do propósito da nossa existência. Eu, apesar de não ter nenhum apreço especial pela humanidade, sempre tive aqui dentro uma necessidade de deixar um legado. Ainda não entendi muito bem essa minha contradição e nem de onde vem essa vontade. Talvez nem seja realmente a necessidade de deixar um legado, mas de sentir que a minha vida tem um objetivo maior do que só simplesmente ser.  Todo esse questionamento veio do alinhamento de dois planetas: a finalização do doutorado e o término do semestre letivo. Vem o "ócio" (muito entre aspas, acho que seria mais "a ausência de compromissos urgentes") e aquela pergunta que até agora martela na minha cabeça: o que eu vou fazer com todas essas horas livres? Meu amigo respondeu simplesmente: "viver, Raquel", e caramba, então eu não estava vivendo antes? O que é viver? O que é existir?  Droga, voltei para o começo da discussão.  Só sei que Deus me livre de viver a vida...

Capítulo 227 - A tranquilidade e a inquietude

Em março de 2018, bateram 12 badaladas em um relógio interno que contava regressivamente o número de bolsas de doutorado que ainda me restavam até obter o meu título (ou perder o direito à bolsa). Me vi desesperada, pois eu não tinha sequer começado a escrever o artigo necessário para a defesa do doutorado, não tinha terminado o programa experimental da minha tese e muito menos feito as análises numéricas. Tinha acabado de passar num concurso para professora substituta na UFRJ, mas esse salário também tinha um relógio regressivo interno de  no máximo 24 meses. Em cima de tudo isso, já estavam fazendo concurso para professor efetivo das disciplinas que eu estava ministrando provisoriamente na UFRJ, ou seja, esses 24 meses poderiam ser 6 meses e acabou. Desse caldeirão de ansiedade só pôde sair uma coisa: síndrome do pânico. Eu, que já tinha passado (ainda passava) por depressão e ansiedade no doutorado , agora completava a tríade das doenças mentais em apenas um curso. Não podia col...

Capítulo 226 - Quando perdemos alguém que nos fez muito mal

At this height of the championship vocês já devem saber que eu vivi um relacionamento muito abusivo uns anos atrás (7 anos, em 2021). Essa relacionamento foi extremamente danoso para a minha saúde mental e a minha autoestima. Transformou uma mulher segura de si, em outra extremamente frágil, insegura, que acha que está sempre errada ou incomodando ou ambos, que duvida o tempo todo da sua capacidade e da sua sanidade. Passei quatro anos colocando os traumas para debaixo do tapete e fingindo que estava tudo bem por não ter a menor condição financeira de pagar uma terapia. Dois anos de terapia após eu conseguir um emprego, eu pude finalmente dizer que tinha superado o que aconteceu comigo. Sinceramente, eu não sei se existe uma maneira de superar ou se curar 100% de um relacionamento assim. As cicatrizes ficam mais da cor da pele, mas elas ainda continuam ali. Você não volta a ser quem era antes, eu acho que não tem como. Você vira outra pessoa e você tem que tentar fazer o melhor que con...

Capítulo 225 - A incapacidade de vestir a camisa

Eu, desde muito cedo, já apresentava uma certa dificuldade de me encaixar em alguns grupos. Não que eu fosse uma criança isolada; eu tinha muitos amigos. Mas eu não conseguia me empenhar em certas atividades como eles conseguiam, com tanta naturalidade. Eu nunca me senti motivada a fazer esportes coletivos no recreio, performar peças de teatro ou musicais, nem que fosse só entre amigos. Antes, eu achava que eu "só não gostava muito de esportes mesmo" ou que eu já tinha "nascido velha para dancinhas e teatro" (como se fossem coisa de criança). Com o tempo e a minha maturidade, eu abandonei qualquer resquício daquela competitividade infantil doentia e não conseguia sequer torcer para time de colégio, para o meu grupo na competição de pique-bandeira, nem me empenhar naquelas briguinhas bobas entre colégios de cidade pequena. Achava tudo um saco e sem propósito. Só conseguia torcer para o Brasil na copa da Fifa, pois era um evento mundial, mas também não ficava muito ch...

Capítulo 224 - Como eu odeio a romantização do sofrimento

Eu tive a oportunidade de fazer uma curso de formação na universidade onde leciono sobre psicologia positiva, com a proposta de melhorar nossas relações com os outros e conosco mesmos, assim visando uma vida mais saudável e feliz. Foi um baita curso. As aulas, o material extra disponibilizado pela professora e as discussões que dali vieram nas rodas de conversa expandiram meu olhar sobre o que é o outro e sobre como nos relacionamos. Um dos módulos do curso foi sobre empatia e eu pude perceber como as pessoas cometem diversos erros quando tentam ser empáticas com outras em situação difícil. Eu não me excluo desse grupo dos que erram, uma vez que também sou pessoa. O vídeo que eu mais gostei foi o  TEDx da Carolina Nalon  (recomendo assistir), que fala justamente sobre esses erros mais comuns no processo empático. Ela também cita o trabalho do Paul Bloom, que fala sobre o lado ruim do excesso de empatia, fato do qual eu nunca parado para refletir profundamente, mas que já ...

Capítulo 223 - Qual é a dos Coachs?

Tirando todo os proclames de que existe gente séria e charlatões em todo o ramo profissional, pensem aqui comigo: por que será que as pessoas cada vez mais recorrem aos coachs para resolver a sua vida profissional e pessoal? E por que será que cada vez mais pessoas resolvem se autoentitular por esse nome que, em menos de 10 anos, já está mais desgastado que aquela camiseta da Copa de 1998 que você usa até hoje para dormir?  Vamos combinar: viver dá muito trabalho. Cansa muito e a pior parte de ser adulto, definitivamente, é ter que aguentar as consequências das escolhas que você faz todos os dias. Hoje mesmo eu escolhi fazer uma receita de brigadeiro e comer ela todinha sozinha depois do almoço. Gostaria de estar passando por essa vergonha e autohumilhação por não ter o menor controle sobre meus impulsos alimentares? Não. Preferiria ter alguém do meu lado todos os dias me dizendo o que eu devo ou não comer e fazer? Com certeza. Assim, eu, pelo menos, conseguiria terceirizar a resp...

Capítulo 222 - Mudanças de perspectiva

Eu me mudei (de casa ou cidade) exaustivas 12 vezes durante os meus parcos 34 anos de vida. Eu sei que vocês estão morrendo de curiosidade, então lá vai: Macaé - Rio de Janeiro - Macaé (casa) - Macaé (apto) - Niterói - Campinas - Santa Bárbara d'Oeste - Americana - Rio de Janeiro - Niterói - Lavras (apto 1) - Lavras (apto 2). Sim, eu sei que você já fez a conta, isso dá uma mudança, em média, a cada 2,83 anos. Contudo, a gente que trabalha um pouquinho com estatística bem sabe que média não significa absolutamente nada. Para ilustrar este fato, jogo aqui na roda que as últimas 7 mudanças ocorreram nos últimos 10 anos.  Mudar muitas vezes me fez uma pessoa mais prática e menos desapegada com coisas e pessoas, porque você invariavelmente tem que fazer a sua vida toda caber dentro de um número limitado de caixas de papelão e simplesmente deixar para trás o lugar onde vivia. Quando eu me mudei de Americana para o Rio de Janeiro em 2015, eu percebi que eu ainda tinha coisas dentro da ca...

Capítulo 221 - A lógica da produtividade sufoca

No post passado eu falei que tenho uma "mania de transformar tudo em itens da lista de afazeres, até os hobbies". Esses dias, passeando pelas redes, eu vi que essa parecia ser uma questão presente na vida de outras pessoas, principalmente daquelas do mundo da escrita/leitura, os perfis literários de Twitter e Instagram. Existe uma pressão externa e interna muito grande para "ler x livros por mês" ou "escrever y palavras por dia". Também tem aqueles que querem "assistir z séries ou filmes". Dizem que não é uma competição entre eles, é só para incentivar o hábito, não deixar enferrujar. Eu posso dizer aqui que essa dinâmica já me incomoda há tempos. A vida já cobra demais todos nós, proletários. Quase não sobra tempo para fazermos as coisas que de fato gostamos e queremos fazer (já discuti isso no post anterior). Você querer se organizar para conseguir realizar essas coisas no tempo livre é, sim, muito bom. Eu, inclusive, posso falar por experiênci...

Capítulo 220 - Há tempo de se fazer tudo que sonho ou devo parar de sonhar?

Hoje é meu último dia das primeiras férias desde 2016 nas quais eu não tive obrigação de trabalhar. Não mexi uma vírgula em relação ao doutorado e só orientei de leve alguns alunos da universidade. Foram 30 dias dedicados a mim mesma, aos meus hobbies e meus projetos pessoais. Tinha na minha "lista de afazeres" tanta coisa bacana que não fiz sequer metade. Sim, eu sou dessas que transformo tudo em "afazer", até os hobbies. Tinha listado séries e filmes a assistir, livros a ler, contos a revisar, livros a melhorar, histórias a escrever, receitas a testar e aprender, voltar a estudar idiomas. No final, eu assisti duas séries, devo ter lido uns 6 livros e revisei bastante material escrito, além de organizar todos os dados e fotos do meu computador. Fiz coisa para um caramba, mas mesmo assim não consegui "tirar o atraso" que 5 anos sem férias me causaram na minha vida fora o profissional, o que acabou gerando uma angústia e uma inquietude enormes em mim a resp...