Capítulo 236 - Pequenas grandes aventuras de mudança
Já tinha comentado com vocês o meu desejo de voltar às origens desse blog. E não tem nada mais característico deste meu pequeno lote da webesfera do que coisas dando errado comigo ou me fazendo passar nervoso.
Como vocês já sabiam, eu me mudei para o Rio Grande do Sul faz pouquíssimo tempo (menos de uma semana). Saindo de um interior para outro interior nesse Brasilzão de proporções continentais, a viagem Lavras-Alegrete é composta de um trecho de ônibus (Lavras - São Paulo), um trecho de avião (São Paulo - Porto Alegre) e outro trecho de ônibus (Porto Alegre - Alegrete). Sim, é uma delícia realizar esse trajeto, comumente tendo que dormir por duas noites seguidas sentada numa poltrona ininclinável de ônibus.
Eu não tenho mais condicionamento físico para fazer uma viagem desse porte. Da última vez que fui de Alegrete para Lavras nesse esquema, eu fiquei, sem brincadeira, quatro dias com dor na bunda, tendo que tomar relaxante muscular por um tempo não recomendado na bula do remédio. Então, desta vez eu resolvi pedir ajuda para uma amiga e pernoitar em São Paulo antes do meu vôo, dormir na posição horizontal para variar um pouco.
Então, minha viagem ficou dividida da seguinte maneira: 1) ônibus Lavras - São Paulo, dia 29/03; 2) vôo São Paulo - Porto Alegre, dia 30/03 e 3) ônibus Porto Alegre - Alegrete, dia 30/03, com chegada no dia 31/03.
Assim como aproximadamente 85% da população adulta deste país (datacu), quiçá deste mundo, eu sou uma pessoa ansiosa. Então você imagine que eu, na semana passada, estava a ponto de ter um treco a qualquer virada de esquina. Não sei se é da idade, mas, apesar de medicada, viagens estão me deixando completamente surtada. O que antes era uma ansiedade normal (para quem tem ansiedade), de chegar no aeroporto com algumas horas de antecedência do meu vôo, juntou-se a esta um desejo irrefreável o medo de morrer na viagem com uma constante e obsessiva conferência de datas.
Então estava eu dia 29/03 na rodoviária de Lavras, aguardando meu ônibus que atrasara devido a um pneu furado no trajeto São João del Rey - Lavras (a-há! bem feito para você, Murphy, pois eu me programei com mais de um dia de antecedência justamente para não passar esses nervosos sem necessidade), plena e pacífica, quando recebo um SMS da Azul (alô, Azul, é 2005 pedindo as tecnologias de volta) falando para eu fazer check-in antecipado para o meu vôo, que seria no dia 29/03. Sim, aquele mesmíssimo dia que eu estava vivendo.
O que é isso, Brasil? Uma pegadinha? Um filme? Eu juro para vocês, que se eu tivesse algum problema prévio de coração, eu tinha ido de arrasta para cima na mesma hora. Meu coração deve ter atingido uns 190 BPM (mas jamais saberemos essa taxa com precisão, uma vez que meu relógio fit quebrou, comprei outro que também veio quebrado - esse é todo um capítulo a parte nesse blog).
Suei. Suei suor de estresse. Aquele suor nas axilas e na testa que vem junto da sensação do rosto pegando fogo. Coração acelerado. Vontade de chorar. Mas como? Eu tinha me programado tão bem. Como que eu deixei passar isso? Não é possível.
Abri o aplicativo da Decolar. Conferi minha reserva. 30/03.
Não me convenci.
Abri o site da Azul. Coloquei o código da reserva. 30/03.
Não me convenci. E também não dormi aquela noite, apesar de estar na posição horizontal. Eu só iria me convencer quando chegasse ao aeroporto no dia seguinte.
Então no dia seguinte eu cheguei com aquelas muitas horas de antecedência habituais para o meu vôo. Me dirigi quase correndo até o balcão da Azul, tremendo, e com a voz embargada falei com a atendente que tinha comprado passagem para aquele dia, mas a Azul tinha mandado um SMS no dia anterior falando que meu vôo era no dia anterior. Mostrei o SMS. Elas já me olharam com aquela cara de "coitada dessa senhora confusa com a tecnologia", mas ao verificar no sistema, a minha passagem estava correta, para o dia 30/03. Devem ter ficado com tanta pena de mim e medo de levarem um processo, que fizeram meu check-in e me alocaram no espaço Azul; ainda, disseram que eu poderia despachar a minha bagagem de mão como cortesia.
— Deu 14 kg, vou te transferir para o caixa para realizar o pagamento — disse a atendente.
— Eu não vou pagar, não. Não era despacho gratuito? — Perguntei, levemente puta.
— Mas sua mala está fora dos padrões de mala de mão, virou um despacho de mala comum — argumentou, quase sem sentido a atendente.
— Bom, só vão saber disso no portão de embarque se você contar, porque nunca pesam mala de mão por lá — disse eu, encarnando o espírito carioca que por vezes me ronda e já pegando a mala de volta.
— Pesam, sim, principalmente se você for da Seção 3 — atendente pegou minha passagem, era Seção 1 — Você é cliente Diamante? — Perguntou ela, bastante constrangida.
— Não sou. Vou tentar a sorte. Boa tarde — encerrei a interação.
Segui para o raio-x. Meu litro de cachaça passou sem problemas. Enrolei mais um pouco e me dirigi para frente do portão de embarque, nervosa. Minha mala estava explodindo. Eu estava com três itens de mão. Agora era a hora que a jeba ia entrar. Eu tinha certeza absoluta de que aquela atendente tinha entrado em contato com o pessoal do embarque e passado meu nome. Tinha uma grande placa na minha testa escrito "cliente com excesso de peso na bagagem". Não teria escapatória.
Eu era Seção 1, então assim que anunciaram a abertura do embarque, me posicionei na fila. A outra atendente da Azul anunciou que o vôo estava lotado e que precisariam de dez voluntários para despachar a bagagem gratuitamente, caso contrário, seria despacho compulsório. Me voluntariei. Não pesaram minha mala. Etiquetaram-na como prioridade. Ainda recebi um sorriso simpático e um "Deus lhe abençoe" da atendente.
Bom demais ter nossos direitos de passageiro de volta.



Comentários
E se tiver algo proibido na minha mala? E se eu, sem querer, estiver levando uma BOMBA?
Mas que bom que deu tudo certo, que deus abençoe os funcionários desatentos (exceto se for o piloto).
Ainda bem q a professora é uma pessoa porreta. Mas, não poderia só bater a poeira dos sapatos no embarque de Lavras sem pelo menos alguns acontecimentos...rsrsrs