Capítulo 155 - Eu tenho medo!
Parafraseando Regina Duarte: "Eu tenho medo!". Diferentemente desta, meu medo não se resume ao PT estar no poder. Diria que meus medos (no plural) são de caráter mais físico do que sócio-político-ideológico.
Tenho medo, por exemplo, de cair. E sei o quanto isso é irônico se levarmos em conta meu péssimo equilíbrio e meu hábito de tropeçar, no mínimo, 7,5 vezes ao dia.
Também tenho medo de certos animais. Aranhas e escorpiões assombram meu subconsciente em tal magnitude que eu frequentemente sonho que estou sendo perseguida por um destes, tento correr, caio, começo a me arrastar pelo chão enquanto o bicho segue andando calmamente atrás de mim, me deixando ser traída pelo meu próprio desespero. Também não gosto de traças, mas aí não é medo, é VONTADE DE MORRER! Acho esse ser tão asqueroso que minhas entranhas se contorcem todas.
Mas o pior dos medos que eu tenho, e também tema do presente capítulo, é o medo do meu próprio corpo. Ou melhor, o medo do fato de não ter total controle sobre ele e das possíveis humilhações públicas as quais este descontrole pode me levar. É fato que se você comer alguma coisa estragada o seu corpo vai colocar pra fora, pela via de cima ou pela via de baixo, e não há nada nesse mundo que mude isso. Nem uma reunião com o chefe, nem aula de física 3, nem muito menos qualquer "limitação" social como a ausência de banheiro ou, o que é pior, de papel.
Mas palma, palma, não priemos cânico! O assunto do dia é bem menos escatológico. Vocês não precisam tirar as crianças e idosos da sala. O descontrole da vez foi mais um SURTO PSICÓTICO.
Queridos leitores, a pessoa que aqui vos escreve, tão vivida e prevenida, teve um lapso de memória e, uma única vez na vida, a voz de sua sábia progenitora não ecoou em sua mente momentos antes de subir num carro para viajar, perguntando "Fez xixi?". E após tomar 500 ml de suco de laranja no café da manhã, o resultado não poderia ser diferente: vontade MONSTRA de fazer xixi no meio da estrada.
Começou com um leve desconforto e eu avisei ao Boça para que parasse em algum posto para que eu me aliviasse. Exatamente 37 segundos depois de tal aviso, subimos um viaduto e nos encontramos num desesperador congestionamento. Estava escrito no letreiro luminoso "Trânsito lento até o KM 45" e eu me vi de repente numa busca incessante por uma daquelas plaquinhas que indicam o KM da estrada que você se encontra. Neste momento, uma parte de mim com fé e positivismo se acendeu e eu repeti para mim mesma como num mantra: "Que estejamos no KM 44! Que estejamos no KM 44!".
Mas vocês, que já acompanham esse blog desde 2006, sabem que a chance disso acontecer era algo muito próximo do valor da densidade do isopor em kg/cm³. Depois de 10 minutos de engarrafamento, percebi que, primeiro, estávamos no sentido inverso da estrada, os números decresciam; segundo, estávamos no KM 57!
Sim, caros leitores, 12 km de engarrafamento!
"Bom", penso eu, "A vontade de fazer xixi não está tão grande assim e em algum lugar nesses 12 km deve ter algum posto ou alguma parada para que eu faça minhas necessidades fisiológicas.". Vinte minutos depois, tínhamos andado pouco mais de 1 Km e eu decidi abrir o botão da calça para diminuir a pressão. No rádio tocava uma playlist minha e resolvi cantar para distrair meu consciente do fato de que minha bexiga estava do tamanho de uma melancia. Mais vinte minutos depois e uns 2 km adiante, eu dei uma aliviada no cinto de segurança, porque as coisas estavam ficando mais, digamos, sérias, e comecei a procurar algum cantinho na estrada que fosse escondido o suficiente.
Uma hora depois de termos entrado no maldito engarrafamento do caralho, ainda faltavam uns 7 km pra estrada voltar a ter fluxo normal e eu comecei a amaldiçoar todos os filhos de umas putas daqueles engenheiros de transporte que resolveram fazer uma rodovia toda de túneis e viadutos, impossibilitando a salvadora agachadinha de beira de estrada! Não conseguia mais prestar atenção na música que tocava no rádio, não conseguia pensar em mais nada, só queria fazer xixi antes que minha bexiga explodisse ou que eu me humilhasse fazendo xixi nas calças no carro alheio que, pra melhorar, tinha banco de couro.
Esperneei, gritei, xinguei, chorei. Leitores, chorei. De forma contida, obviamente, porque se eu abrisse portas pra qualquer fluido sair do meu corpo naquele momento ia dar merda. E quando já estava perdendo as esperanças e me preparando psicologicamente para uma auto-humilhação sem precedentes, surgiu uma estrada adjacente. O Boça encostou e a única coisa que eu consigo me recordar é de uma felicidade e um alívio maior do que senti quando vi que passei em Análises de Estruturas 2 sem precisar de prova final.
Voltei para o carro. Pedi desculpas. Estava exausta emocionalmente. Pelo menos agora eu podia respirar fundo e voltar a sorrir. Sem dúvida, uma viagem memorável!
Comentários
lembrei duma vez em que eu estava na mesma situação no fretado da empresa. a viagem é curta, mas apostei q aguentaria chegar em casa só que (obviamente) justo neste dia peguei engarrafamento. já perto de casa, quando o ônibus se aproximava da Júlio de Mesquita e minha bexiga parecia um balão de São Cosme e Damião, estou concentrado em não passar vergonha e pela primeira vez na vida reparo naquela loja Q&E. pior, pensei "Q&E? Questions and 'ENSWERS'???". até hoje não sei como consegui rir como um mongol sem fazer uma poça no chão
Raquel, você já pensou em procurar um psicólogo para cuidar da sua bexiga?
Não é possível que isso seja fisiologicamente normal!
;)
Eu certamente teria feito ali msm no trânsito. Ngm me conhece mesmo... rs
A outra foi no carnaval do ano passado... Estava tudo engarrafado e eu estava com a bexiga doendo desde copacabana. Quando o ônibus chegou na glória percebi que não daria para continuar sem nenhum desastre ocorrer. Saí correndo, literalmente, da glória até minha casa na lapa. Trajeto interminável, uma vez q a lapa fica intransitável, mesmo a pé, nesta época do ano. Mas dessa vez consegui me libertar no devido lugar rs.
Nunca experimentei igual sensação de alívio como naquele dia, entendo perfeitamente o que você passou!