Capítulo 159 - Boletim de reclamações

Estou ficando velha e achando tudo chato e repetitivo. E isso já tem tempo.

Mas também não é de hoje que reclamo como todo ano as mesmas coisas me irritam (o Especial Roberto Carlos, principalmente). Ou seja, eu estou me tornando repetitiva e me achando chata.

Os sintomas da velhice se intensificaram de forma violenta com o advento do Facebook. Nos seus primórdios, em 2008, tudo era novidade. Creio que tenha sido lá pra 2010 quando os brasileiros resolveram  transformar a rede social em um militante passivo de conscientização popular e o negócio começou a ficar insuportavelmente chato.

Todo ano em janeiro, por exemplo, surge uma corrente de "anti-BBBs", falando o quanto o programa é pobre em cultura, o quanto as pessoas que assistem são alienadas e engolem tudo que a Globo passa. Após o programa efetivamente começar, o post mais compartilhado é um texto que seria a opinião do Luis Fernando Veríssimo sobre essa edição do BBB. E é sempre o mesmo texto. E duvido muito que seja do Veríssimo.

Em fevereiro, a moda da vez é a opinião da âncora paraibana Rachel Sheherazade sobre o carnaval. Todo mundo compartilha, curte e comenta o quanto a festa antes tão pura e bonita se tornou a desculpa oficial e anual do brasileiro pra beber como se não houvesse amanhã e fazer tudo aquilo que foi reprimido durante os outros 11 meses e 3 semanas do ano. Mas no final do mês, só o que se vê são as fotos da galera de abadá, completamente louca, dançando e vomitando ao "som" da Banda Calypso.

Em Março, o lindo mês que estamos passando, a onda é falar mal da Páscoa, em como os ovos de chocolate são um golpe comercial e um agente do capitalismo selvagem cujo único objetivo é fazer você gastar mais por uma quantidade menor de chocolate. Esquecem que por trás da data existe o significado do Equinócio de Primavera no hemisfério norte, da estação da renovação e da fertilidade. Alguns dizem que também se comemora a ressureição de Cristo.

Essas mesmas pessoas que criticam a compra dos ovos de chocolate e propõe a campanha "Compre o equivalente em barras", no dia 12 de Junho gastam dinheiro pra comemorar o dia dos namorados, uma data que foi indubitavelmente inventada pelo comércio brasileiro pra aquecer a economia, pois não havia motivos pro povão gastar entre o dia das mães e o dia dos pais. No resto do mundo, esse dia é comemorado em 14 de fevereiro, Dia de São Valentim, que se mostrou incompatível com a cultura brasileira (leia-se "proximidade do carnaval").

E esse foi o boletim de reclamações do primeiro trimestre de 2013. Voltamos com mais mimimi em Junho.

Comentários

Luiz Fabiano disse…
Excelente post! A internet deu voz pras pessoas, mas cada vez elas parecem terem menos pra dizer, então o repeteco fica reverberando conforme a pauta do dia
Unknown disse…
Não podemos esquecer da Festa de São Patrício (17 de março), quando todos os bêbados do Carnaval reclamam de uma data onde bebemos como irlandeses.
Está coberta de razão. Pena que ter razão é visto como ser chato e idiota
Cler disse…
Muito bom! Você simplesmente traduziu o que eu pensei nos últimos dias.

Há algumas semanas desativei meu Facebook pq não aguentava ver sempre as mesmas coisas: lamentações, xingamentos nas quartas devido ao futebol, brigalhada (não)intelectual de BBB13, crazy ou cagueizy e por aí vai.

Voltei pra ele pq senti falta dos amigos inteligentes. Mas no mesmo dia tive um pequeno acesso de arrependimento pq tudo estava lá (de novo).

Pois é, idosei.

Felipe disse…
Foi ontem mesmo que eu comentei que tem gente que tá querendo mudar o mundo via facebook; pra mim, aquilo é só um fórum onde eu posso reclamar que me engasguei com bolo, sabe?
Fico na dúvida se as pessoas estão no lugar errado ou se meu subconsciente acredita que meus engasgos mudarão o mundo.

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