Capítulo 161 - Seu Paulo, Seu Chico, problema seu

Em 2011 o universo tirou de mim o Seu Paulo, um velhinho porreta e teimoso que me presenteava com situações das mais bizarras (essa e essa, por exemplo) no laboratório de mecânica dos solos, tendo participação massiva e quase protagonista neste blog; diária na minha vida. Mas o universo não iria me deixar sem um velhinho cheio das trapalhadas e no mesmo ano resolveu me presentear com o Seu Chico, o porteiro do turno da tarde no meu prédio.

Um dia, meus pais estiveram aqui em casa e meu pai fez uma cagadinha. Cortou o cabo coletivo da antena que passava por dentro do apartamento e, sem saber, tirou o sinal de televisão de toda a coluna 4. Ao sair, meus pais deixaram a chave na portaria para que eu a pudesse reaver na minha volta. As senhorinhas, que aquele dia ficaram sem assistir o Vale a Pena Ver de Novo e o programa da Sônia Abrahão, saíram de suas clausuras e foram encher os ouvidos do Seu Chico de reclamações. 

Seu Chico, pois, não hesitou em pegar a chave que tinha sido deixada aos seus cuidados e entrar no meu apartamento com o técnico de televisão na minha ausência, para verificar o que estava acontecendo. Quando cheguei, ele nem se fez de rogado ao dizer que tinha entrado no meu apartamento, brincado com o meu cachorro e que já estava tudo resolvido, como se invasão de domicílio fosse algo corriqueiro.

Na semana seguinte o síndico me encontrou na portaria e me informou que eu seria multada por cortar um cabo coletivo do condomínio. Eu o informei que o condomínio seria processado por invasão de domicílio e invasão de privacidade com o agravante de abuso de confiança. Estranhamente essa multa nunca chegou.

Além deste grande fato, Seu Chico ainda me presenteia todos os dias com pequenos mimos. Por exemplo, Seu Chico reclama quando eu entro e saio demais num dia só. Ele diz que eu teria que pagar pedágio na portaria pra diminuir a freqüência de minhas saídas. Porque, aliás, abrir e fechar portas apertando um botão, sentado numa cadeira, cansa demais e não deve ser do escopo do Seu Chico, o porteiro, pra ele reclamar tanto assim dessa função.

O senhorzinho tem dias que me cumprimenta com piadas e sorrisos, tem dias que ele somente emite um grunhido, algo como "Mmhumm", quando eu passo. Um estrondo de simpatia! Dar "bom dia" ou sequer levantar o olhar quando eu entro também parecem cansar além da conta esse ser tão vivido.

Porém, quando de bom humor, nada abala Seu Chico. Nem o sol escaldante, nem a chuva torrencial fazem o bom velhinho se apressar em abrir a porta para mim. À extenuante velocidade de 0,5 m/s, ele se locomove em direção ao botão, que também responde em câmera lenta, enquanto eu frito ou me ensopo do lado de fora.

Seu Chico também exerce um papel informativo no prédio. Além da função inerente aos porteiros de, como não quer nada, contar toda a vida alheia, o senhor também me fornece boletins informativos descontextualizados e segmentados toda vez que entro ou saio. Algo como "e o cara ainda saiu reclamando, você acredita?". Realmente, de relevante importância para o meu melhor entendimento do mundo.

Mas Seu Chico não é só um funcionário do condomínio; ele também é um elemento coesivo dos vizinhos. Não tem como entrar no elevador após ser recebido pelo Seu Chico e não comentar suas peripécias. Acho que todo esse comportamento excêntrico não passa de um plano muito maior, onde o objetivo é a união e confraternização das pessoas. 

Comentários

Felipe disse…
Acho que o seu Chico trabalha um turno em cada prédio que eu já morei, sempre sob um pseudônimo e disfarce diferentes.
hahahaha
Cler disse…
Pelo amor de Dumbledore! Por que todos os porteiros são assim? Ou será que seu Chico é um X-Men disfarçado com poder de onipresença?

Bem, sendo ou não, eles conseguem ser piores que as senhorinhas da fofoca do segundo andar. Sabe aquelas vovós que ficam na janela dia e noite observando todos os passos de todos os moradores de todos os prédios de toda a rua? Então...
Michele Pupo disse…
Raquel, a cada dia mais me convenço de que você leva o maior jeito como cronista. Já tentou enviar seus textos para um jornal?
De repente...

Broco o quê? disse…
Seu Chico deve viver de chico! rs

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