Capítulo 189 - E O Vento Levou... a minha inspiração.

Volto do almoço, com a sensação de culpa causada pelo Cornetto sufocando a de satisfação causada pelo imenso prato de saladas. Por um instante me indago se a satisfação veio mesmo da salada ou surgiu junto com a culpa, logo após o Cornetto. O intenso trabalho das semanas anteriores deixa no ar o gostinho de um final de tarde tranquilo no expediente. Sento-me na cadeira e olho o céu irritantemente azul pela janela. O vento sopra tão forte lá fora que o prédio todo em estruturas metálicas começa a assobiar. De súbito surge uma inspiração. 

- É isso! "O vento sopra forte lá fora e o prédio todo em estruturas metálicas começa a assobiar." Essa é uma excelente frase para um conto - penso.

Abro a página do blogger no navegador e escrevo a frase num piscar de olhos, tão rapidamente quanto possível para uma jovem que passou anos a fio de sua adolescência digitando no chats do mIRC no escuro. 

- Ótimo. Agora só falta o restante. Personagem, cenário, trama. Esse negócio de começo, meio e fim. 

Olho novamente para a tela e repito mentalmente a frase, esperando que o restante da "folha" em branco fosse magicamente preenchido por palavras que pareceram ser milimetricamente medidas e dispostas para o deleite dos meus leitores. Só que isso não ocorre.

- "O vento sopra forte lá fora e o prédio todo em estruturas metálicas começa a assobiar" - repito baixinho. 

Meu colega de sala, alheio a profundidade dos meus pensamento pergunta:

- O que?

Sem graça, repito, agora olhando pra ele.

- O vento lá fora está soprando tão forte que faz o prédio todo em estruturas metálicas assobiar. - digo, como se fosse uma frase corriqueira, como que pra puxar assunto.

Ele emite um grunhido e volta aos seus afazeres, acometido de que, na verdade, eu não estava falando com ele em primeiro lugar. 

Retorno a cadeira giratória para minha posição de trabalho e continuo encarando a tela. O vento lá fora continua soprando forte, às vezes tão forte que faz o prédio todo em estruturas metálicas assobiar em mais de 3 tons diferentes. E eu ainda não consegui pensar em nada. 

- Ok, algo me diz que este deveria ser um conto de amor - eu me convenço - Faz tempo que não escrevo um desses e esse lance todo do vento compor sinfonias pode gerar um cenário romântico. Ou seria de terror? Nossa, verdade, cenário de terror total. De onde veio essa história de conto de amor?

Olho pela janela novamente e o céu continua naquele azul profundamente lindo. E irritante.

 - Caramba, nem pra São Pedro me ajudar aqui nessa trama. Não cai uma árvore, não arma um temporal. Nada. Só essa droga desse vento soprando tão forte e fazendo a merda do prédio todo em estruturas metálicas assobiar. Que puta que pariu! - extravaso mentalmente - Uhn, de repente uma música ajuda. 

Pego o fone de ouvido, abro o site de músicas e escolho a mesma banda que coloquei como despertador. Essas coisas que nem eu mesma entendo em mim. Colocar uma música que se gosta como despertador é correr o risco de detestá-la para todo o sempre. 

O chefe entra na sala. Imediatamente paro de dançar com a cabeça e mexer os lábios efusivamente como se estivesse num clip visto apenas pelas sinapses dentro da minha cabeça e finjo estar compenetrada em algo relacionado ao trabalho.

Desligo a música. Não está ajudando em nada. Ao invés de me dar alguma ideia, só está desviando minha atenção. 

E o vento ainda sopra forte lá fora e o prédio todo em estruturas metálicas continua a assobiar.

É, hoje não vai dar mesmo. Deixa pra outro dia.

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