Capítulo 190 - Pânico em alto mar. Só que em terra. E de carro.

A vida é cheia de ironias, não é mesmo? E uma dessas ironias me fez passar hoje por uma das coisas que Eu tenho medo! E não! Eu não caguei nas calças e nem fui perseguida por escorpiões. Foi um medo absurdo que eu não tinha à época daquele post, pois não dirigia. 

O medo a que me refiro neste post é o de me perder nas estradas desse Brasilzão de meu deus.

Mas vamos primeiro à ironia...
Eu pratiquei Krav Magá por 6 anos da minha vida e o máximo que eu quebrei foi o dedo da mão do meu coleguinha. Esta semana estava correndo pela casa brincando com a dona Kiwi e atropelei uma cadeira de madeira. Logo me veio uma pontada na lateral do corpo que permaneceu comigo até o dia seguinte e se manifestava até quando eu fazia curvas acentuadas no carro.

Pronto, quebrei uma costela. E lá vou eu pro hospital pra tirar um raio-x e verificar como andava meu arcabouço sólido.

Cheguei na recepção do pronto atendimento e fui designada a responder pela senha de número 868.  Escolhi a cadeira com a maior distância para as outras pessoas provavelmente doentes e me sentei. O display toca. O número 854 aparece na tela. Treze pessoas na minha frente.

O fato da emergência estar lotada não se caracterizou como nenhuma sorte de surpresa da minha parte. O surpreendentemente mesmo foi, exatos 10 minutos depois de eu me sentar, se iniciar a Convenção Anual de Idosos e Gestantes Enfermos. No display, começaram a pipocar senhas de atendimento prioritário. Quando o meu relógio interno badalou uma hora de espera e a bateria do meu celular atingiu um nível preocupantemente baixo, o display tocou novamente e anunciou a senha 856. 

Contas rápidas. Uma hora de espera igual a 2 pacientes, para 13 pacientes serão... Fui embora. 

Cheguei hoje ao trabalho no meu segundo dia de dor e um amigo me indicou o hospital onde o marido dele trabalha. É do convênio. O atendimento é rápido. É limpinho. O piso é de porcelanato. É em Sumaré.

Fuck.

Nunca tinha ido a Sumaré sozinha. Mas agora eu era uma mulher independente, destemida e munida de um GPS. O que poderia dar errado?

O endereço me foi passado, porém fui instruída a ir por dentro da cidade de Nova Odessa e não pela rodovia. A distância era a mesma e eu ainda não pagava pedágio. Ótimo. Coloquei o endereço no GPS e ele me indicou a rota pela rodovia. Bom, é só pegar a rua pra dentro de Nova Odessa, o GPS recalcula a rota e me manda pro hospital. Fácil.

Fiz todo o procedimento como manda o figurino. Quando sai da rota, ele me alertou: "Retorne". "Não", eu mentalmente respondia, "Eu quero vir por dentro de Nova Odessa". Continuei seguindo as placas que me direcionavam para Sumaré. O GPS insistia: "Retorne". "Não vou retornar, eu sou teimosa, caceta!!". "Retorne".

Silêncio.

"Recalculando a rota". Ufa, ele se resignou de que eu não ia pegar a droga da rodovia. "Vire à esquerda", "vire à direita", "atravesse a rotatória". Nossa, realmente devo estar chegando perto, depois de meia hora dessa lambada automotiva. 

Cai na rodovia! E pior, na boca do pedágio! GPS traíra filho de uma puta. Paguei o pedágio com o parco dinheirinho que tinha na carteira, torcendo muito pra chegar logo naquela bosta de hospital, já que o desgraçado me fez pagar 7 reais. 

"Siga em frente" daqui, "continue na rodovia" dali, "pegue a saída à direita". OPA! PERA AÍ! CADÊ A SAÍDA QUE TAVA AQUI? Simplesmente fecharam. Malditas obras! Malditos engenheiros!!!

E lá foi meu não tão amigo assim GPS à loucura. "Recalculando rota", "Recalculando rota". Eu tentando achar uma saída à direita e nada. "Recalculando a rota". 

Pra resumir a novela dos torturantes 40 minutos que se seguiram, o filho duma égua me mandou pra 3 rodovias diferentes. Entrava, recalculava, saía. Eu já não tinha a menor ideia de onde estava. Nessa hora meu amigo me ligou pra saber se eu tinha chegado bem. O informei que não, eu não tinha chegado bem, eu não sabia se ia chegar em lugar algum e que talvez o meu GPS tivesse um esquema com ladrões de órgãos e estava me levando para a Candy Mountain para roubar meus rins.

Ele se manteve comigo no celular no auto falante até eu me achar. Eventualmente eu me achei. Acabei caindo na Anhanguera, direção Campinas. Depois de Sumaré. Tinha que fazer o retorno e conseguir entrar na cidade. De preferência antes que o pedágio chegasse pois eu já não tinha certeza se teria dinheiro para pegar o segundo, já que eu sai da Prefeitura com a ideia de não pagar nenhum.

Meu amigo foi me guiando e pediu para eu parar no posto para pedir informação, mas, adivinhem só, o acesso para o posto também estava fechado. Entrei na rua logo depois para contornar o quarteirão e entrar no posto, já que ele estava em funcionamento, não é possível, tem que ter um jeito de entrar nessa bodega que não envolva um portal pra outra dimensão. 

Toda rua na direção que eu precisava para contornar o quarteirão levava para propriedades particulares. Daí, cinco minutos depois, eu decidi que já tinha me embrenhado o suficiente um bairro desconhecido de uma cidade que eu nem sabia mais qual era e resolvi tomar a atitude mais sábia e adequada pra situação: Estacionei o carro e chorei copiosamente.

Pausa para vocês rirem ou terem pena de mim.

Passado o momento desespero, limpei o rosto, fiz o retorno e fui me desesperar em outro lugar, um que eu conhecesse, pelo menos. A rodovia. No caminho de volta, encontrei um senhorzinho de chapéu de palha. "Ah, o que é que custa, né. Piorar, eu duvido muito que piore".

Perguntei. E o senhorzinho me deu direções tão precisas que eu consegui sair de um lugar que até agora eu não sei onde é para o hospital em 10 minutos.

E só pra constar, minha costela não está quebrada. E eu passei menos tempo sendo atendida (cadastro, consulta, raio-x, diagnóstico) do que perdida por aí.

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