Capítulo 192 - Virando a casaca, pela segunda vez

Sabem aquele papo batido do "Ela tinha tudo e mesmo assim não era feliz"? Precisamente eu, no ano de 2014.

Com 27 anos, já tinha me formado na universidade, me tornado mestra, passado num concurso público e ainda possuía um apartamento próprio. É a vida que muita gente da minha idade, ou até mais velha, almeja. Tinha um currículo bom, um emprego estável, um lugar onde cair morta. E por que então eu não era feliz?

O emprego era bom. Apesar de não ser exatamente na área que eu amo (geotecnia), ainda era engenharia civil e achei que seria uma excelente oportunidade de não me limitar, desenvolver mais os outros lados dessa carreira tão versátil. Me sustentava muito bem, obrigada, e sobrava no final do mês. O apartamento era um deslumbre. Fantástico, espaçoso, bem localizado, todo reformadinho por mim. A minha cara, o meu cheirinho, os meus detalhes. A cidade era tranquila, pequena, sem trânsito. Chegava de casa ao trabalho em 15 minutos. Mas mesmo assim eu não me sentia em casa.

Passando um pouco o tempo, percebi que a resposta para a pergunta lá de cima é muito simples e muito clichê: eu não era feliz porque tinha ao meu lado mais pessoas que não gostavam de mim do que pessoas que me amavam. Que tristeza, né?

Não estou dizendo que fui mal tratada por todo mundo que conheci e nem que a minha vida foi uma merda no tempo que eu morei em Americana. Imagina. Conheci pessoas fantásticas que encheram meus dias de felicidade, de amor e de aprendizado (nossa, quanto aprendizado). Ainda, depois que eu levei um pé na bunda, me livrei de todas as pessoas bad vibes que me cercavam e me julgavam por cada pequeno ato e palavra que eu dizia. A vida ficou muito mais leve. Mas a sensação de não pertencimento ainda existia, de olhares tortos na vizinhança ("uma mulher jovem, solteira, morando sozinha"), de "deus me livre de criar meus filhos aqui".

E passando por tudo isso, consegui chegar a algumas conclusões sobre a (minha) felicidade e a (minha) vida, como um todo.

- Não vai ser um emprego que vai te trazer felicidade. Se você está desempregado ou num emprego insatisfatório, eu te dou todo o apoio do mundo para correr atrás do que você realmente goste. Mas não pense que quando você o encontrar, sua vida vai se resolver.

- Não é um imóvel próprio que vai te trazer felicidade. Claro que é uma alívio tremendo você ter um lugar para chamar de seu e um facilitador para tudo na vida, mas de nada adianta ter uma casa se esta não for um lar.

- Não é um cônjuge que vai te trazer felicidade. Não mesmo. É um companheiro. E mesmo assim, ninguém é super-herói ou gênio da lâmpada para resolver os seus problemas por você e fazer você feliz. Você tem que ser feliz por si próprio e, se quiser, ter alguém do seu lado que esteja disposto a passar por todas as dificuldades contigo, te ouvir, te aturar nos piores momentos e comprar brigas por você.

- Amigos verdadeiros e a família podem até estar longe fisicamente, mas quando te amam ficam pertinho do seu coração e isso faz toda a diferença do mundo. Não me imaginaria passando por tudo isso sem ter no meu coração uma meia dúzia de pessoas especiais. E tudo foi muito menos difícil tendo ao meu lado fisicamente algumas que literalmente enxugaram minhas lágrimas e me reergueram.

Saber que tenho esses amigos que me trouxe felicidade. 

Não estou falando de colecionar 20 brothers pra te levar pra balada pegar todos e enfiar bebida goela abaixo quando você está triste. Porra, não me confundam. Estou falando de amor. De amor a si e amor ao próximo. De se doar, de sacrificar seu tempo pelo bem do amiguinho, de discordar e dar muita bronquinha por querer que ele evolua como pessoa, como profissional e não ficar rindo dos erros que ele comete. Isso que é amizade de verdade. E isso nada tem a ver com o tempo em que se conhecem ou a quantidade de porres que tomaram juntos. É uma questão de coração. Me repito. Já falei sobre isso aqui.

Fiz amigos de verdade e reforcei amizades de verdade que já tinha antes dessa jornada. Saí dessa uma pessoa completamente diferente do que entrei. Muito mais forte, muito mais madura e com muito mais cicatrizes. Mas agora, se vocês me dão licença, eu tô com saudades de casa.

Comentários

Michele Pupo disse…
Que em 2015 você consiga estar mais próxima de casa e de quem realmente importa, Raquel. Envio minhas melhores vibrações.

Bjs!
Luiz Fabiano disse…
Quantas sábias palavras! Eu tinha lido seu post na hora em que ele saiu e agora que o reli, ele me lembrou um pouco o filme Na Natureza Selvagem. Já assistiu? É dum rapaz que deixa sua família pra se aventurar pelos Estados Unidos, viaja por vários estados, conhece uma infinidade de gente e constata que a felicidade só é verdadeira quando compartilhada.

Agora que esse seu período de aprendizagem acabou com tamanho aproveitamento, desejo um ótimo retorno e que você possa se sentir em casa novamente =)

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