Capítulo 201 - Domingo Hilariante
Quem já conviveu o mínimo de tempo comigo sabe que eu tenho duas neuras com cheiros, além, claro, daquele CC de cebola que um ou outro professor de Física conseguia ostentar a 3 fileiras de carteiras de distância e um indiscutível cheiro de Cheetos bolinha que veio junto na sola do seu sapato quando você cruzou um campo gramado: plástico queimando e gás.
O plástico queimando, apesar de parecer inofensivo, pode ser indicativo de que tem alguma tomada da sua casa superaquecendo ou até mesmo pegando fogo. Fogo elétrico é uma parada muito séria e que muita gente se ferra porque corre para a solução que seria a mais óbvia: água. Nunca faça isso, amigo. Você vai dormir e acordar no céu (e eu não tenho certeza se lá tem pão). Você tem que usar extintor de incêndio apropriado ou então abafar o fogo, privando-o de seu combustível (oxigênio) com uma coberta ou similar.
O cheiro de gás eu nem preciso explicar. Uma faísca e BUM. Tudo pelos ares. E parece que explodir casas virou uma espécie de tendência no Rio de Janeiro nos últimos anos.
E isso é relevante por que? Bem, cá estava eu no meu sofá revendo Lost num típico domingo preguiçoso e relaxante quando começo a sentir cheiro de gás. Meu sentido aranha me fez imediatamente correr para a cozinha e verificar todas as bocas do fogão e cheirar cada pedacinho daquele cômodo. Percebi que o cheiro vinha da varanda e liguei para o porteiro. O Bira, exibindo uma paz perturbadora, confirmou que ele também tinha sentido um cheirinho de gás e que ia ligar para os vizinhos, como se isso fosse uma coisa corriqueira. "Estou sentindo um cheirinho de bolo assando" igual a "estou sentindo um cheirinho de vazamento de gás" no mundo do Bira.
Cinco minutos depois. o cheiro já começava a me causar dor de cabeça. Sentindo um leve pânico surgindo, peguei a chave de casa, o celular e sai pra passear com a Kiwi para dar uma arejada na cabeça, de preferência longe do raio de uma possível explosão. Quando cheguei à portaria, percebi que, um a um, todos os vizinhos ligavam para o porteiro para avisar sobre o cheiro de gás. Bira, ainda inabalável e mal movendo as sobrancelhas, surgiu com a solução: "Acho que vou avisar o síndico". É, talvez seja uma boa ideia avisar o síndico.
Sabe, às vezes acho que certas pessoas têm papéis definidos aqui na Terra. O papel do Bira era não se estremecer. Talvez isso tenha sido mais importante do que eu imagino, uma vez que se eu visse mais alguém entrando em pânico, neste momento eu estaria digitando esse post das colinas do Butão e não do meu sofá.
Em pouco tempo, o síndico já se encontrava fazendo a inspeção de todas as unidades no prédio. O ser chamado ansiedade que crescia numa razão geométrica dentro de mim me fez sair com a Kiwi na coleira, sem documentos ou um puto no bolso mesmo sem uma resposta. No caminho, avistei uma faixa da empresa Águas de Niterói, dizendo "Reparo emergencial". Meu sentido aranha novamente me fez perguntar para os trabalhadores se eles sabia de algum vazamento de gás ali pelas redondezas. Sem nenhuma surpresa, fui informada de que eles estavam reparando a tubulação de água e atingiram a de gás acidentalmente.
- Mas não tem perigo de explodir não, né?
- Mas não tem perigo de explodir não, né?
- Não, senhora, super seguro. Não vai ter explosão.
Exatamente dez segundos depois viram a esquina não um, mas sim dois caminhões de bombeiro e param no exato local onde eu estava. Sirene tocando e os caralho. Meu sentido aranha agora me disse para ir passear com a Kiwi o mais longe possível, de preferência em outro bairro, e voltar para casa em meia hora ou depois de ouvir um enorme BUM acompanhado de janelas estilhaçando para recolher os cacos do que outrora havia sido a minha vida.
Mas eu não contava com o péssimo condicionamento do pug, que em menos de quinhentos metros já arfava mais do que o normal para um ser de sua espécie em repouso. Tivemos que abandonar nosso audacioso plano de chegar à Icaraí e paramos no bairro anterior. Meia hora depois, eu já não tinha mais desculpas pra continuar arrastando o cachorro pelas pedrinhas portuguesas, a peguei no colo e voltei para casa, rezando para todos os deuses os quais conseguia me lembrar.
O cheiro de gás tinha sumido. Subi para o meu apartamento, tentando me livrar da dor de cabeça e do sentimento de incertezas que ainda me rondavam. Uma hora depois, já entrava novamente na minha rotina dominical de Netflix, quando ouço as mesmas sirenes de bombeiro se aproximando. Junto com elas, um cheiro. Mas dessa vez não era de gás, era de fumaça.
Ufa! Era só um incêndio.
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