Capítulo 220 - Há tempo de se fazer tudo que sonho ou devo parar de sonhar?

Hoje é meu último dia das primeiras férias desde 2016 nas quais eu não tive obrigação de trabalhar. Não mexi uma vírgula em relação ao doutorado e só orientei de leve alguns alunos da universidade. Foram 30 dias dedicados a mim mesma, aos meus hobbies e meus projetos pessoais. Tinha na minha "lista de afazeres" tanta coisa bacana que não fiz sequer metade. Sim, eu sou dessas que transformo tudo em "afazer", até os hobbies.

Tinha listado séries e filmes a assistir, livros a ler, contos a revisar, livros a melhorar, histórias a escrever, receitas a testar e aprender, voltar a estudar idiomas. No final, eu assisti duas séries, devo ter lido uns 6 livros e revisei bastante material escrito, além de organizar todos os dados e fotos do meu computador. Fiz coisa para um caramba, mas mesmo assim não consegui "tirar o atraso" que 5 anos sem férias me causaram na minha vida fora o profissional, o que acabou gerando uma angústia e uma inquietude enormes em mim a respeito do tempo que ainda tenho disponível na vida para realizar tudo que eu quero.

Teve também o aniversário aí no meio para ajudar nessa pequena crise existencial. Fiz agora 34 anos e, tendo em vista as reformas da previdência, a gente precisa ser realista numa coisa: a minha falta de tempo não vai melhorar. Eu não vou me aposentar nunca e estou presa daqui até o final da minha vida numa rotina de 40 horas semanais de trabalho. E olha o quão privilegiada eu sou, por ter um emprego estável (até o momento) de apenas 40 horas semanais. Se eu fosse autônoma, acho que essa minha crise teria sido responsável por, no mínimo, uma internação em clínica psiquiátrica.

Vejam, eu amo o que eu faço, de verdade. Apesar de, muitas vezes, os alunos quase me enlouquecerem. Apesar de, durante o semestre, eu trabalhar muito mais que 40 horas semanais e todos os dias da semana. Ensinar e agregar algo na vida dos outros, nem que seja um pouquinho, é muito recompensador pra mim e eu faço com amor. Mas não posso deixar de pensar que nós, como seres humanos, somos muito mais do que apenas a nossa profissão. Nós somos multifacetados demais para passarmos um terço da vida fazendo a mesma coisa. Eu queria ter tempo para desenvolver outras habilidades minhas. Cada vez mais eu tenho a sensação de que esse tempo passou, era na juventude. E olha que eu aproveitei até os 25 anos para aprender um pouco de tudo. Fiz aula de música, de lutas e de idiomas, mas hoje olho para trás e vejo que podia ter aproveitado ainda mais. 

Agora eu sou irremediavelmente uma adulta presa nesse sistema capitalista que esmaga a gente, que sufoca, que não nos permite ser nada além de uma máquina de produzir coisas. Mesmo sendo funcionária pública, a lógica capitalista impera na forma de pensar dos gestores. No final, eu não sei se é a minha profissão que me sufoca, ou se é a instituição que eu trabalho.

Eu quero ser professora. E também quero ser escritora! E também quero cozinhar bem. Caramba, eu quero viver, além de trabalhar, eu quero desenvolver meus potenciais ao máximo. Mais deles, não apenas um. Tudo isso se torna ainda mais curioso quando eu me pego pensando que precisava de mais tempo para poder trabalhar melhor, mas o próprio trabalho não me dá tempo de realizar meus projetos profissionais. A cobrança é tanta de todos os lados, que eu não tenho paz para montar as disciplinas novas que quero ofertar, me aprofundar em projetos, em pesquisas. Tem tanta coisa que eu quero estudar  mais e aprender mais por pura gana do conhecimento, mas o trabalho não me deixa. E eu já percebi que a minha sensação de completude vem do aprender, do experimentar.

Eu preciso de momentos de ócio. O ócio desperta a criatividade para resoluções de problemas e para criações artísticas. O ócio põe os nossos desejos em perspectiva. Eu não quero viver com a sensação de que a minha vida passou enquanto eu trabalhava. Eu não quero viver repetindo os mesmos procedimentos no trabalho, as mesmas aulas, sem melhorar no que eu faço. Eu fico entediada, vai me dando um siricutico. As vezes me dá vontade de largar tudo e ir viver da minha arte. Mas, pra piorar tudo isso, artista não é nada valorizado nesse país.

Puta que pariu, ser adulto é um porre.

Comentários

Bart Rabelo disse…
Eu comecei a me sentir como você quando estava com uns 34 ou 35 anos também. Hoje tenho 42. Honestamente, acho que as coisas melhoram, apenas em ritmo de tartaruga com reumatismo. E olha só que perspectiva interessante: vários autores de sucesso que eu adoro só estouraram quando estavam em torno dos seus 40 anos. Uma luz no final do túnel...? :D
Júlia disse…
Aí, estou na transição pra vida adulta, ou já sou adulta?
Os dias estão ficando cada vez mais cansativos e menos prazerosos.

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