Capítulo 221 - A lógica da produtividade sufoca

No post passado eu falei que tenho uma "mania de transformar tudo em itens da lista de afazeres, até os hobbies". Esses dias, passeando pelas redes, eu vi que essa parecia ser uma questão presente na vida de outras pessoas, principalmente daquelas do mundo da escrita/leitura, os perfis literários de Twitter e Instagram. Existe uma pressão externa e interna muito grande para "ler x livros por mês" ou "escrever y palavras por dia". Também tem aqueles que querem "assistir z séries ou filmes". Dizem que não é uma competição entre eles, é só para incentivar o hábito, não deixar enferrujar. Eu posso dizer aqui que essa dinâmica já me incomoda há tempos.

A vida já cobra demais todos nós, proletários. Quase não sobra tempo para fazermos as coisas que de fato gostamos e queremos fazer (já discuti isso no post anterior). Você querer se organizar para conseguir realizar essas coisas no tempo livre é, sim, muito bom. Eu, inclusive, posso falar por experiência própria que depois que comecei um caderninho com meus desejos e aspirações, estou conseguindo colocar muito mais coisas em prática. Mas transformar o que seria seu tempo de descontração e diversão em mais uma cobrança para terminar coisas no prazo não é bom. Esmaga, sufoca. 

E de onde veio essa necessidade, essa urgência de "tickar" as caixinhas de "feito" da lista? Eu confesso que cresci numa casa repleta de pessoas ansiosas. Terminar tarefas é extremamente recompensador e me dá prazer. Apesar de muita terapia e meditação, eu provavelmente vou ter que lutar contra isso o resto da minha vida. Não posso abaixar a guarda, senão a ansiedade toma conta. Isso me deixa mais ansiosa? Sim. Ironias da vida. 

Pois bem, a lógica da produtividade no trabalho se disseminou tão rapidamente e de forma descontrolada no nosso estilo de vida que tomou também o nosso tempo livre e o nosso lazer. Daquelas teóricas 8 horas diárias que nós temos para usarmos como quisermos, já não podemos mais olhar para o teto e simplesmente não fazer nada, pensar na vida, pensar na morte da bezerra. O cérebro já começa a pirar: "Tá pensando em que? É um conto? Um post do blog? Uma propaganda para o livro? É uma forma de você conseguir resolver aquele problema no trabalho? Você está pensando em como melhorar o que você já tem pronto?". Não, para, por favor, eu só quero olhar para o teto e pensar no branco da tinta, tentar achar figuras aleatórias no padrão da madeira falsa do armário, tentar criar consciência corporal para mexer só o dedinho do pé sem mexer os outros, me deixa em paz!

Respira fundo.

Mais um vez.

E tenha sempre em mente que a lista de afazeres nunca acaba. Nunca, nunca, nunquinha. Ela só se renova.

Comentários

Bart Rabelo disse…
Eu sempre tive um "problema" no trabalho pois uma das coisas que mais me dá prazer é consertar algo ou fazer algo funcionar. Quando você trabalha analisando documentações complexas em licitações ou até mesmo tentando transformar um conceito de negócios em fórmulas e relatórios no Excel, acaba esbarrando em muralhas que parecem instranponíveis. Por isso já aconteceu mais de uma vez das pessoas me verem sentado olhando para uma tela por 10, 15 minutos, parado, sem me mexer. Pode parecer que não estou fazendo nada, mas a minha cabeça está recalibrando tudo o que eu fiz e vou fazer a partir dali. E muitas vezes mais vale fazer isso que eu faço, ou descer pra dar uma volta, parar pra tomar um ou dois cafés, do que ficar insistindo em erros e lógicas duvidosas.

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