Capítulo 223 - Qual é a dos Coachs?

Tirando todo os proclames de que existe gente séria e charlatões em todo o ramo profissional, pensem aqui comigo: por que será que as pessoas cada vez mais recorrem aos coachs para resolver a sua vida profissional e pessoal? E por que será que cada vez mais pessoas resolvem se autoentitular por esse nome que, em menos de 10 anos, já está mais desgastado que aquela camiseta da Copa de 1998 que você usa até hoje para dormir? 

Vamos combinar: viver dá muito trabalho. Cansa muito e a pior parte de ser adulto, definitivamente, é ter que aguentar as consequências das escolhas que você faz todos os dias. Hoje mesmo eu escolhi fazer uma receita de brigadeiro e comer ela todinha sozinha depois do almoço. Gostaria de estar passando por essa vergonha e autohumilhação por não ter o menor controle sobre meus impulsos alimentares? Não. Preferiria ter alguém do meu lado todos os dias me dizendo o que eu devo ou não comer e fazer? Com certeza. Assim, eu, pelo menos, conseguiria terceirizar a responsabilidade pelos meus fracassos.

Eu acho que é daí que vem todo esse fuzuê por coach, é para isso que as pessoas pagam muito dinheiro. Não é para ter melhoramento pessoal, é puramente para se eximirem das responsabilidades pelos rumos que suas vidas tomaram. Não consegui emagrecer? Foi o meu coach de emagrecimento que não me instruiu corretamente. Não consegui ser promovida? Meu coach de carreira deixou passar um aspecto importantíssimo do cenário profissional. Meu relacionamento foi às ruínas? Meu coach de relacionamentos pisou na bola. A famigerada frase "não fui eu, foi o meu eu-lírico" ganha agora uma forma mais século XXI: "não fui eu, foi meu coach".

E você pode ter certeza, sempre que houver alguém querendo delegar uma responsabilidade, vai ter outra pessoa querendo ser muito bem paga para realizar escolhas sem o menor preparo e responsabilidade, disfarçando o exercício ilegal da profissão com um termo gringo. Sério, o que é um "coach de emagrecimento"? Se a pessoa não é médica, não é nutricionista, não é educadora física ou até psicóloga, o que ela é? Uma curiosa de internet? Francamente. 

Passou da hora de nós, como sociedade, encararmos de frente a dura realidade de que viver é um porre mesmo, é mais obrigação do que diversão, é muito trabalho duro para colher poucos frutos, é muito nada para poucos altos e (que bom) poucos baixos, é um eterno equilibrar pratinhos em varetas, é ser bom em uma coisa, mediano na maior parte das outras e péssimo em mais algumas. Tem sempre alguma coisa dando errado, tem sempre um relacionamento capengando, tem sempre uns kilos para ganhar ou para perder, tem sempre uma preocupação na cabeça, tem sempre alguma parte do corpo doendo. 

Viver é administrar as nossas faltas e frustrações. A gente pode e deve fazer muita terapia para tentar colocar isso dentro das nossas cabeças, mas nenhum profissional vai fazer essas faltas simplesmente desaparecerem. Elas só somem e ressurgem em outros lugares, sobre outras formas. É assustador, sim. A vida é assustadora.

Comentários

Luiz Fabiano disse…
Raquel, você comentou meu post sobre coaching e deixo minha resposta aqui haha gostei da sua interpretação de que o atrativo do coach é a possibilidade de delegar responsabilidades e, mais ainda, jogar para alguém a culpa em caso de algum fracasso. O engraçado é que reconhecer isso deixa implícito que o cliente se tornou quase como um robozinho ou personagem de videogame sem iniciativa, algo que a pessoa odiaria ou negaria se apontado por terceiros. Aí surge um impasse porque ninguém quer ser visto como coadjuvante, mas também não quer ser autor de cagada hehehe

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