Capítulo 224 - Como eu odeio a romantização do sofrimento

Eu tive a oportunidade de fazer uma curso de formação na universidade onde leciono sobre psicologia positiva, com a proposta de melhorar nossas relações com os outros e conosco mesmos, assim visando uma vida mais saudável e feliz. Foi um baita curso. As aulas, o material extra disponibilizado pela professora e as discussões que dali vieram nas rodas de conversa expandiram meu olhar sobre o que é o outro e sobre como nos relacionamos. Um dos módulos do curso foi sobre empatia e eu pude perceber como as pessoas cometem diversos erros quando tentam ser empáticas com outras em situação difícil. Eu não me excluo desse grupo dos que erram, uma vez que também sou pessoa.

O vídeo que eu mais gostei foi o TEDx da Carolina Nalon (recomendo assistir), que fala justamente sobre esses erros mais comuns no processo empático. Ela também cita o trabalho do Paul Bloom, que fala sobre o lado ruim do excesso de empatia, fato do qual eu nunca parado para refletir profundamente, mas que já tinha vivenciado.

Vamos começar do final. O lado ruim da empatia é basicamente cegar a pessoa que está tentando ser empática para a situação real.  A pessoa em sofrimento muitas vezes não consegue enxergar a gravidade ou não da realidade, porque, bom, está em sofrimento. Se o ouvinte desenvolver um excesso de empatia, pode ele mesmo perder a noção do que realmente acontece e passa a não mais ajudar a pessoa em sofrimento, mas a piorar o quadro exaltando as dificuldades da situação.

Já sobre os erros mais comuns da falta de empatia, são citados: (i) citar pessoas que estão em situação pior que a da pessoa em sofrimento; (ii) citar situações que vivenciou que são iguais ou piores do que a pessoa em sofrimento; (iii) trazer soluções ou conselhos para o problema, muitas vezes sem qualquer embasamento e em hora errada.

Mas, um aspecto que nenhum dos vídeos abordou e que eu senti bastante falta foi a romantização do sofrimento. Eu nem sei se esse poderia ser considerado um erro no processo empático, porque me parece que tem muito pouco de intenção de ajudar em falas como "no final, o sofrimento vai compensar, a vitória vai ser mais gostosa". Que porra de discurso é esse que já foi institucionalizado?

Vejam, eu não defendo uma vida sem sofrimentos e frustrações, porque, vamos combinar, isso é impossível. Mas acho que muitos sofrimentos são totalmente desnecessários no processo de evolução e aprendizagem da pessoa. 

Exemplo pessoal: em 2018 eu passei no concurso da UFLA. Foi a maior vitória da minha vida em termos de carreira. Mas não foi fácil. Na época do concurso, eu estava no meio dos ensaios experimentais da minha tese, dando aula como professora substituta na UFRJ, com absolutamente zero tempo livre para qualquer coisa. Consegui me virar, estudar previamente para o concurso, largar minhas obrigações por uma semana inteira para vir à Lavras, gastar dinheiro que eu não tinha para passagem, hospedagem e alimentação. Passei a semana do concurso inteiro tendo crises de choro e pânico. No final, eu passei. 

Foi sofrimento o bastante para o prêmio? O Universo achava que não. 

Em pouco tempo, recebi uma ligação da universidade dizendo que eu não poderia ser efetivada, porque a UFRJ não tinha me desligado, conforme eu havia pedido e eu corria o risco de perder minha vaga. Sofrimento. Horas chorando e dias com o orifício anal na mão. Resolvido.

Ao final do primeiro mês, o departamento pessoal cometeu um erro, cadastrou minha agência bancária erroneamente e meu primeiro salário foi depositado na conta de outra pessoa. Foram mais de 15 dias para consertar esse erro e eu fiquei 45 dias sem salário. Eu, que não tinha nos meus planejamentos financeiros todos os gastos de uma mudança repentina, não tinha um PUTO de dinheiro, vi meus cheques quicando pela praça. Mais sofrimento. 

E que recompensa eu tive disso tudo? A vaga que era minha de direito e o salário que era meu de direito, atrasados e com constrangimento embutido. O que isso me ensinou? Nada. Sofrimento desnecessário.  Essa situação só serviu para me fazer chorar litros e aumentar o número de cabelos brancos. Enfia o discurso da vitória mais gostosa no teu cu.

Saindo da esfera pessoal, o que eu mais tenho visto na mídia, principalmente na Rede Globo, é uma chuva de romantização de sofrimento. Outro dia ouvi a frase "a crise nos faz crescer" e a ânsia de vômito veio até na boca e voltou. Também já assisti propaganda de incentivo ao empreendedorismo onde uma só pessoa faz absolutamente tudo na pequena empresa. Nossa, que multitarefas ele, né? Que competente, o cara se vira mesmo, corre atrás dos seus sonhos. Não, caralho, ele tem que se virar sozinho porque não tem como pagar alguém para ajudar ele. Nem vamos mencionar a história do menino que tinha que subir na árvore para estudar. Nenhuma criança tinha que passar por uma humilhação dessas para ter acesso ao que é seu por direito. Não temos que ficar achando isso bonito. Isso só reflete o quanto o mundo é uma MERDA!

Aliadas a isso, ainda existem correntes religiosas que ajudam o sistema a te convencer de que você sofre, pois era o seu destino e Deus está tentando te ensinar alguma coisa, mantendo o status quo. E eu peço aqui a ajuda d'Ele para fazer as pessoas verem que nem sempre o sofrimento é necessário para o crescimento e para se obter o que se almeja. Às vezes é só uma tremenda falta de sorte ou então o capitalismo sendo esse essa ideologia escrota que é mesmo, te convencendo que você sofre para merecer o mínimo de dignidade aceitável.

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