Capítulo 225 - A incapacidade de vestir a camisa

Eu, desde muito cedo, já apresentava uma certa dificuldade de me encaixar em alguns grupos. Não que eu fosse uma criança isolada; eu tinha muitos amigos. Mas eu não conseguia me empenhar em certas atividades como eles conseguiam, com tanta naturalidade. Eu nunca me senti motivada a fazer esportes coletivos no recreio, performar peças de teatro ou musicais, nem que fosse só entre amigos. Antes, eu achava que eu "só não gostava muito de esportes mesmo" ou que eu já tinha "nascido velha para dancinhas e teatro" (como se fossem coisa de criança). Com o tempo e a minha maturidade, eu abandonei qualquer resquício daquela competitividade infantil doentia e não conseguia sequer torcer para time de colégio, para o meu grupo na competição de pique-bandeira, nem me empenhar naquelas briguinhas bobas entre colégios de cidade pequena. Achava tudo um saco e sem propósito. Só conseguia torcer para o Brasil na copa da Fifa, pois era um evento mundial, mas também não ficava muito chateada se perdia, não. 

O buraco era mais embaixo e parecia que tinha algo fora do lugar comigo, algo faltando.

No início da juventude, eu entrei para o Krav Magá, uma luta de defesa pessoal, e vi que meu problema nunca tinha sido com esportes, mas com esportes coletivos. Era muito mais legal fazer algo "sozinho" do que em equipe para mim. O problema foi que começaram a instituir uma cultura estranha de tratar todo mundo como "família" lá dentro, de abdicar do meu tempo de descanso para atividades fora dos horários das aulas, de ir em almoços de domingo, de comprar luva, sapato, kimono, camiseta, caneca, chaveiro, mousepad, lanterna, mochila, garrafa squeeze, etc, com o logo do KM, aí o negócio para mim desandou e eu pulei fora mesmo gostando de lutar. 

Assim que terminei o mestrado, comecei a trabalhar numa faculdade privada, lecionando para o curso de engenharia civil. O lugar era bacana, não tinha nada de muito ruim, nem de muito bom. O salário não era dos mais justos, para ser sincera, mas era meu primeiro emprego e estava me dando a experiência na área acadêmica. E foi aí que eu percebi que também achava totalmente sem propósito ir nas palestras do CEO que ele contava sobre a empresa, achava um absurdo ele falando para a gente se esforçar mais vezes do que a gente considerava aceitável por um bom desempenho para construir o nome da instituição. Via em alguns dos meus colegas uma gratidão acima do saudável por uma relação trabalhista completamente normal, enquanto eu não conseguia ter vontade de colar adesivo da faculdade na traseira do carro e nem na janela no quarto. 

Mesmo hoje, trabalhando em uma universidade pública que tem muitas coisas positivas, como, por exemplo, gestão exemplar de energia, de resíduos, trata sua própria água e esgoto, etc. A defendo de toda e qualquer tentativa de sucateá-la ou exterminá-la, trato-a com o respeito que lhe é devido, quero otimizá-la e servir bem aos alunos e meus colegas, mas sei muito bem até onde vão meus sacrifícios pessoais e a dedicação do meu tempo de vida que é único e não tem reposição. 

Devo confessar, que essa minha dificuldade de vestir a camisa da minha UF é muito ligada à gestão quase neo-liberal que atua lá hoje em dia, colocando produtividade e aparências acima do bem estar, saúde e segurança dos seus servidores e alunos. Ranço. Peguei ranço. 

Voltando... eu fui criada sem educação religiosa em casa. Meu pai é ateu e minha mãe uma católica decepcionada com a religião, então eles deixaram que eu e minhas irmãs buscássemos essa espiritualidade nós mesmas quando fôssemos maduras. Já fui na igreja católica, no centro espírita kardecista (mais de um), no centro espírita de umbanda, eu simplesmente não consigo me sentir parte de nenhuma religião. Eu acredito em uma força maior, mas não consigo me denominar nada. 

O único movimento coletivo que me move são os shows das bandas que eu gosto. Eu me arrepio e choro de emoção, grito, danço, pulo, boto todos os meus demônios para fora. Fora isso, eu percebi que eu não consigo vestir a camisa. Eu quase não vejo SENTIDO em vestir a camisa, de me agrupar, de ser parte de algo maior nomeado, com outro grupo de pessoas. Eu já tentei, mas não rola. E hoje com o que fizeram com a camisa da seleção, nem copa do mundo da Fifa eu torço mais. Com certeza eu estou perdendo aí uma emoção única de fazer parte de uma conquista de algo maior, mas tudo bem, acho que essa minha característica me impediu de entrar em uma ou outra seita por aí, e, no mínimo, meia dúzia de esquemas de pirâmide.

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