Capítulo 227 - A tranquilidade e a inquietude
Em março de 2018, bateram 12 badaladas em um relógio interno que contava regressivamente o número de bolsas de doutorado que ainda me restavam até obter o meu título (ou perder o direito à bolsa). Me vi desesperada, pois eu não tinha sequer começado a escrever o artigo necessário para a defesa do doutorado, não tinha terminado o programa experimental da minha tese e muito menos feito as análises numéricas. Tinha acabado de passar num concurso para professora substituta na UFRJ, mas esse salário também tinha um relógio regressivo interno de no máximo 24 meses. Em cima de tudo isso, já estavam fazendo concurso para professor efetivo das disciplinas que eu estava ministrando provisoriamente na UFRJ, ou seja, esses 24 meses poderiam ser 6 meses e acabou. Desse caldeirão de ansiedade só pôde sair uma coisa: síndrome do pânico. Eu, que já tinha passado (ainda passava) por depressão e ansiedade no doutorado , agora completava a tríade das doenças mentais em apenas um curso. Não podia colocar o pé para fora de casa que me vinha uma incontrolável vontade de chorar.
Em maio deste mesmo ano, eu fiz o concurso para a UFLA. Sem dinheiro sobrando, paguei ônibus e pousada por uma semana para ir à Lavras e ser testada incansavelmente. Meu emocional e psicológico estavam em frangalhos, era só chegar de volta à pousada que eu caía no choro incontrolavelmente e não conseguia estudar para as fases seguintes do concurso. Acabei passando em segundo lugar. Respirei de certa forma aliviada, pois sabia que havia perspectiva de chamarem o segundo colocado, mas imaginei que eu teria tempo de terminar o doutorado com calma. Não deu. Me chamaram duas semanas depois e, por conta de um congresso internacional marcado para a data da posse, eu tive que pedir para tomar posse extraordinariamente para poder sair do país e não perder o cargo. Fiz a mudança aos trancos e barrancos, dirigi chorando boa parte do caminho para Lavras com o Uno lotado de coisas porque não tinha o menor preparo para essa mudança naquela hora.
No emprego, as coisas não foram facilitadas para mim. Fui designada a 3 disciplinas. Tive que prepará-las todas do zero, além de ministrar as aulas, tirar dúvidas, aplicar e corrigir provas e trabalhos. No segundo e terceiro semestre, mais disciplinas novas, somando em média 12 horas de sala de aula por semana. E tinha o doutorado no meio disso tudo. E relacionamento. E família e amigos. E ainda tinha que fazer exercícios e se divertir (???). Em 24 horas no dia.
No quarto semestre, veio a pandemia. E se vocês acharam que eu ia aproveitar para fazer as coisas com calma, se enganaram. Eu também achei e me enganei, pois meu orientador de doutorado resolveu que era o momento propício para a gente finalizar de vez o doutorado, mesmo eu estando trancafiada em casa com medo de morrer ao respirar. A UFLA também achou uma ótima ideia voltar às aulas remotamente sem pensar no impacto que aquela decisão teria no psicológico dos seus funcionários e alunos. Tive outras crises de ansiedade e depressão. Foram uns 9 meses entrando e saindo de péssimos estados psicológicos, chorando e hiperventilando.
Meus últimos anos foram péssimos, né? Eu fui inundada por um tsunami de mudanças e adaptações. Muita coisa boa aconteceu aí no meio, mas eu simplesmente não tinha mais de onde tirar energia nem para aproveitar essas coisas boas. Agora as coisas estão bem, depois de muitos anos trabalhando igual uma mula, eu posso finalmente dizer que a vida está mais tranquila. Artigo foi submetido e provavelmente defenderei a tese (que está prontinha) em um ou dois meses, já estou estável no meu emprego, fiz tratamento psicológico, a UFLA decidiu começar o próximo período em agosto e eu tive 4 meses para colocar as minhas disciplinas e o doutorado finalmente em ordem.
E eu me sinto culpada por isso, como se eu tivesse que estar me matando de trabalhar, como se ter hora para acordar, para trabalhar, para dormir fosse algo de gente vagabunda, que não leva o trabalho a sério, como se o mínimo esperado fosse ter síncopes constantes por conta do trabalho, como eu vinha tendo há 3 anos. Além disso, diversas vezes sou inundada por pensamentos trágicos de que a qualquer momento eu posso sofrer um acidente de carro ou descobrir uma doença grave, porque parece que não tem como as coisas serem boas sem um plot twist de respeito, né?
Eu não estou sabendo lidar com um ritmo saudável de trabalho, olha que sintoma horrível de como a nossa sociedade está doente. Quantas mais pessoas acham que precisam se matar para serem levadas a sério ou parar sentirem que fazem o mínimo esperado?
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