Capítulo 231 - Férias, pero no mucho
O último período na universidade foi um inferno. De verdade, mesmo, foi um dos piores períodos que eu vivi na minha vida em termos de pressão no trabalho. E olha que eu conciliei emprego com doutorado de 2018 a 2021.
Voltamos às aulas presenciais ainda envoltos em bastantes incertezas quanto ao COVID. Ter que me reacostumar com a rotina de estar dentro de sala de aula, falando para 50 alunos de máscara, face shield e sem beber água foi um desafio. Outro foi o de conseguir ter tempo para realizar todas as atividades fora o trabalho (e também do próprio trabalho). Quando em aulas remotas, economizávamos muito tempo estando em casa. Entre uma aula e outra, dava para por a roupa para lavar, estender no varal, passar aquela vassoura, preparar uma comida e tirar um cochilo pós-almoço. Tendo que estar na universidade oito horas por dia, somando-se o tempo de deslocamento e preparação, sobrou muito pouco tempo para viver. E toda aquela crise existencial que já estava batendo na porta há muitos meses deslanchou de vez.
Não dava para não trabalhar no domingo, pelo menos um pouquinho, senão a segunda-feira era um pandemônio. Trabalhando domingo, quarta-feira já era quinta, chegando e casa as 21h depois de lecionar por 5 horas direto, eu costumeiramente me atirava no sofá e chorava. Chorava muito. A vida não pode ser só isso. São quase 10 da noite e eu não vivi, eu só trabalhei. Eu só trabalhei desde domingo. Eu acordo, vou para o trabalho, almoço, volto para o trabalho, chego em casa, como alguma coisa, academia, banho, cama. Repete.
A sensação esses últimos meses era de que a vida era só obrigação. Eu trabalhei tanto que não tive tempo para trabalhar. Juro. Fiquei para escrever três projetos de pesquisa o semestre inteiro e não consegui sentar para estudar e fazer um plano de trabalho, imagine de desenvolver a pesquisa e escrever um artigo? Não deu. Simplesmente não deu. Tive que deixar grande parte do meu trabalho de lado por conta do meu trabalho.
A sensação que eu tive é que a capacidade do meu cérebro foi reduzida. Talvez por conta de estresse, estafa, talvez uma sequela da pandemia que deixou todo mundo abublé das ideias ou mesmo de uma COVID não diagnosticada, mas eu fisicamente não conseguia trabalhar mais. Meu cérebro pediu socorro. Socorro. Descansa.
E como sair disso? Bom, tem certas coisas que eu não consigo não fazer na minha profissão, então eu vou continuar dando minhas aulas obrigatórias, mas pedi licença das eletivas. Semestre que vem oriento apenas um TCC, com ajuda de um amigo na coorientação. Vou sair para o Projeto Rondon e desenvolver atividade de extensão, algo que sempre quis fazer. Devo ir a um congresso me atualizar e fazer networking.
Neste momento, estou gozando das minhas férias. Mas só teoricamente, porque aqueles três projetos de pesquisa ainda precisam ser escritos e vai ter que ser antes de o próximo semestre começar. E ainda preciso atualizar o Lattes, marcar visitas aos médicos e ver se sobra um tempo para me divertir no meio disso tudo também.
Não tá nada fácil, de verdade. Mal tenho tempo de colocar as minhas ideias no lugar. Eu precisava mesmo era mamata do servidor público que todo mundo diz que existe mas que eu nunca vi, nem comi, só ouço falar mesmo.
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