Capítulo 232 - O envelhecimento e a finitude da vida
Eu sei que envelhecer é um processo natural e que, mais dia, menos, dia, chega para todos que insistem em continuar vivendo. Mas, mesmo com essa consciência, não deixa de ser um processo difícil. A capacidade de simplesmente ignorar o nosso próprio envelhecimento (ou amadurecimento) enquanto somos jovens é incrível. Logo, foi mais do que esperado por um espectador externo o susto que levei ao olhar no espelho e perceber, pela primeira vez, que a pele estava perdendo o viço e as bochechas começando a cair por sobre a boca e os fios brancos já não eram mais contáveis. Não vou dizer que me desesperei, mas, sim, que foi um gatilho para uma diversidade de reflexões sobre a vida.
Perceber que estou envelhecendo foi ter a consciência incontestável da finitude da minha própria vida. Um dia eu vou acabar, não estarei mais aqui, pelo menos não com esse corpo e essas vivências. Eu já estou acabando, aos poucos. O tempo de experiências na Terra é finito.
Vamos, Raquel, acorda! Corre atrás do que você realmente quer fazer na sua vida, não a desperdice, foque nas coisas boas e pare de procrastinar!
Mas ao invés de essa reflexão servir de uma epifania que me fez tornar a pessoa mais produtiva, consciente e presente ao momento do universo, eu cai em uma crise existencial profunda. O niilismo me pegou. Tentei escapar, não consegui. E tudo perdeu sentido. Eu vou acabar. Todo mundo vai acabar. Um dia, a humanidade vai acabar. Então para que continuar vivendo essa rotina sem propósito? Para que acordar cedo, fazer café, me arrumar para ir trabalhar, passar um terço da minha vida (ou mais) me dedicando ao trabalho, se no final tudo vai acabar? A sociedade como conheço perdeu totalmente o sentido e passei por muitos meses por um fio para pedir exoneração e viver da minha arte no meio do mato. Mas aí lembrei que gosto muito de conhecer pessoas, de trocar experiências banhadas por cappuccinos italianos.
Não. Não é isso que eu devo fazer. Pelo menos, não por agora. Então, a que eu devo me dedicar? Será que eu estou vivendo a vida da maneira correta?
Tic tac, tic tac, tic tac. Você está em crise e tempo continua passando, Raquel.
Já faz um ano que eu terminei o doutorado, que voltei a ter tempo livre, algo que não tinha desde o início dos meus 20 anos. E o que eu fiz com esse tempo livre? Eu já poderia ter terminado aquele outro livro que está na gaveta há 7 anos, poderia ter me dedicado mais aos hobbies que já tenho ou aos novos que comecei. Mas a vontade de realizar planos sumiu. Ou talvez não a vontade, mas o ímpeto. Paralisada pela apatia. Enquanto isso, o medo de daqui a 40 anos olhar para trás e desejar ter feito mais, ou ter feito diferente só aumenta.
Como evitar o arrependimento de uma pessoa que eu nem sou ainda? Só deixando um legado incontestavelmente positivo para a humanidade. Não sei se é isso que eu quero. Caramba, um doutorado em engenharia já me sugou a alma, preciso fazer ainda mais? Agora que eu já alcancei um patamar profissional bacana, é hora de descansar ou é hora de encarar desafios maiores? Me deixa em paz, eu quero descansar!
Você que está lendo isso, me desculpa, mas eu não encontrei respostas para esses questionamentos. E, por favor, você que chegou aqui agora e/ou não me conhece o suficiente, não venha me recomendar terapia (você não conhece minha história). Eu preciso é de filosofia. Será que eu devo fazer outra graduação?
Enfim, fui ao dermatologista e fiz um ou outro procedimento estético. Fiz, faço e vou continuar fazendo por alguns anos. Não vejo nisso uma contradição com o feminismo e a luta pela queda dos padrões de beleza e juventude tão rigorosos para as mulheres. Porque, apesar de muito em breve eu completar 36 anos de idade, eu olho para dentro e vejo uma jovem de recéns completados 30 anos. E eu quero me ver como eu me sinto e quero parar de pensar o tempo todo que o relógio está correndo e que um dia eu vou morrer. Me deixa fazer meus preenchimentos.
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