Capítulo 74 - O início do caso de amor com Murphy
Engraçado. Acho que nunca contei aqui no blog quando começou o meu casinho com Murphy. Como esse mês a sua mais famosa (na verdade única) lei fez 60 anos, vou celebrar com essa linda história de amor à primeira vista.
10 de Janeiro de 2004. Aeroporto do Galeão. Estava tudo certo, 3 aviões: Rio-SP, SP-Amsterdan, Amsterdan-Londres. Murphy me lança um olhar 43: o avião que me levaria do Rio a São Paulo estava vindo de Santa Catarina e se atrasou. Graças à nossa amada Varig, eu iria perder meus outros dois voos (que agora não tem mais acento).
Esnobo Murphy: uma representante da Varig, ciente da minha situação e de outro moço (que faria o mesmíssimo trajeto) nos aloca em um voo direto Rio-Londres com escalas em São Paulo e Madri.
"Que ótimo, mas olha, eu já fiz check-in no outro avião. Tem que transferir a minha bagagem também". "Mas é claro, senhora. A sua mala já esta sendo transferida."
Lembrei-me também que os agentes da minha escola de lá deveriam ser avisados que eu chegaria 5 horas antes e ligamos para a sede do Rio.
"Claro, já estou ligando pra lá! Não se preocupem com nada!"
Tudo às mil maravilhas. Entro no avião. É corredor. Ótimo! Não tenho que ficar pedindo permissão pra ir no banheiro. Senta o meu companheiro de viagem: um paquistanês que morava no Chile e estava indo pra Londres. Ele falava inglês, espanhol e urdu, mas surpreendentemente foi impossível de entendê-lo em qualquer uma dessas línguas. Decido ignorá-lo, viro pro lado e finjo estar dormindo.
Quando ficou efetivamente noite no meu horário biológico, Murphy olhou pra mim de novo e me deu uma piscadela: reparei que fui a única que não recebi um cobertor. Passei muito frio até perceber que seria inevitável uma conversa com as adoráveis aeromoça da Varig. Sempre educadíssimas, apesar de não ter absolutamente culpa nenhuma pela falha delas, levo uma patada.
Ao amanhecer, recebo um formulário a ser entregue na imigração da Inglaterra. Não sei preenchê-lo totalmente. Peço ajuda a uma aeromoça que novamente me responde com uma admirável educação: "O que que tem de difícil de preencher um papel??". Não sei. Para uma menina de 16 anos pode ter uma ou outra coisa que ela não saiba, né?
Tudo bem. Estampo um sorriso no rosto. Estou aterrissando na Inglaterra!! Passo pela imigração e vou buscar minha bagagem. Após ver bagagens indo e voltando na esteira, pessoas felizes pegando as suas respectivas malas e saindo para o salão, Murphy dá uma investida mais ousada e me agarra pela cintura: sobram apenas eu, o moço (aquele do começo da história) e uma esteira rolando sem malas em cima. A esteira para. Minha mala não veio comigo.
Vou até a assistência de bagagens, preencho mais um formulário e insisto em estampar o sorriso no rosto (aliás, eu estava na Inglaterra). Pego minha ínfima bagagem de mão e saio pro salão. Foi lá que Murphy me pegou de jeito, jogou meu cabelo pra trás, deu uma lambida nos próprios beiços e me tascou um enorme beijo na boca: não tinha ninguém me esperando!
Incrédula, faço o caminho de volta e, esperançosa entro no salão novamente. É. não tinha ninguém mesmo. Encontro-me, Raquel, apenas uma rapariga latino-americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do exterior, com 16 aninhos sozinha no Heathrow. Somente o aeroporto mais movimentado do mundo.
Calmamente vou até a central de informações e peço pro moço anunciar que eu estava por ali, vai que alguém não me viu, né. Era mais ou menos meio-dia. Espero. Nada. 5 minutos. Nada. 10 minutos. Nada. Vou até o telefone, disco os 372 números que a Telemar ainda teve a coragem de chamar de Brasil-Direto e ligo a cobrar para o Brasil. Murphy me deu um mordidinha na bochecha: não se fazem ligações a cobrar dos orelhões do aeroporto.
Sento, tento me acalmar e vou novamente na central de informações. Calmamente desabo na frente no moço.
"É que.. que.. não tem ninguém me es-esperaaaaaandoooo.."
O pobre do moço, tentando entender um inglês com sotaque no meio dos meus soluços consegue retirar a informação do nome do meu colégio, pega a lista telefônica e liga pra lá. Acho que eu estava num estado lastimável mesmo pro cara cuidar de mim dessa maneira.
"Pronto, estão vindo, mas vai demorar um pouquinho."
"Mu--sniiif-muito Obri-g-gaaaaada"
Sento, pego minhas palavras cruzadas e começo. E faço, e faço. Me divirto. Me entedio. Chegam pessoas e saem pessoas. E eu lá, imutável, quase parte do cenário. Quando finalmente, às CINCO HORAS DA TARDE, vejo alguém com o uniforme do meu colégio rondando por ali. Me identifico.
"Só vamos esperar mais 4 alunos que vão com você na mesma van."
"Ótimo."
E desde então Murphy foi me dando bitoquinhas: os 4 alunos eram chineses. Foram falando chinês do Heathrow até o outro lado da cidade. O único educado que conversou em inglês comigo cometeu a gafe de chamar Rio de Janeiro da capital do país. E o motorista foi rodando, as pessoas foram saindo e só eu ficando. Fui a última a chegar em casa, oito horas da noite.
Mas ao chegar em casa, a cereja no sundae, o que selou a minha união eterna com Murphy: A minha roomate era Argentina.
Raquel S2 Murphy
10 de Janeiro de 2004. Aeroporto do Galeão. Estava tudo certo, 3 aviões: Rio-SP, SP-Amsterdan, Amsterdan-Londres. Murphy me lança um olhar 43: o avião que me levaria do Rio a São Paulo estava vindo de Santa Catarina e se atrasou. Graças à nossa amada Varig, eu iria perder meus outros dois voos (que agora não tem mais acento).
Esnobo Murphy: uma representante da Varig, ciente da minha situação e de outro moço (que faria o mesmíssimo trajeto) nos aloca em um voo direto Rio-Londres com escalas em São Paulo e Madri.
"Que ótimo, mas olha, eu já fiz check-in no outro avião. Tem que transferir a minha bagagem também". "Mas é claro, senhora. A sua mala já esta sendo transferida."
Lembrei-me também que os agentes da minha escola de lá deveriam ser avisados que eu chegaria 5 horas antes e ligamos para a sede do Rio.
"Claro, já estou ligando pra lá! Não se preocupem com nada!"
Tudo às mil maravilhas. Entro no avião. É corredor. Ótimo! Não tenho que ficar pedindo permissão pra ir no banheiro. Senta o meu companheiro de viagem: um paquistanês que morava no Chile e estava indo pra Londres. Ele falava inglês, espanhol e urdu, mas surpreendentemente foi impossível de entendê-lo em qualquer uma dessas línguas. Decido ignorá-lo, viro pro lado e finjo estar dormindo.
Quando ficou efetivamente noite no meu horário biológico, Murphy olhou pra mim de novo e me deu uma piscadela: reparei que fui a única que não recebi um cobertor. Passei muito frio até perceber que seria inevitável uma conversa com as adoráveis aeromoça da Varig. Sempre educadíssimas, apesar de não ter absolutamente culpa nenhuma pela falha delas, levo uma patada.
Ao amanhecer, recebo um formulário a ser entregue na imigração da Inglaterra. Não sei preenchê-lo totalmente. Peço ajuda a uma aeromoça que novamente me responde com uma admirável educação: "O que que tem de difícil de preencher um papel??". Não sei. Para uma menina de 16 anos pode ter uma ou outra coisa que ela não saiba, né?
Tudo bem. Estampo um sorriso no rosto. Estou aterrissando na Inglaterra!! Passo pela imigração e vou buscar minha bagagem. Após ver bagagens indo e voltando na esteira, pessoas felizes pegando as suas respectivas malas e saindo para o salão, Murphy dá uma investida mais ousada e me agarra pela cintura: sobram apenas eu, o moço (aquele do começo da história) e uma esteira rolando sem malas em cima. A esteira para. Minha mala não veio comigo.
Vou até a assistência de bagagens, preencho mais um formulário e insisto em estampar o sorriso no rosto (aliás, eu estava na Inglaterra). Pego minha ínfima bagagem de mão e saio pro salão. Foi lá que Murphy me pegou de jeito, jogou meu cabelo pra trás, deu uma lambida nos próprios beiços e me tascou um enorme beijo na boca: não tinha ninguém me esperando!
Incrédula, faço o caminho de volta e, esperançosa entro no salão novamente. É. não tinha ninguém mesmo. Encontro-me, Raquel, apenas uma rapariga latino-americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do exterior, com 16 aninhos sozinha no Heathrow. Somente o aeroporto mais movimentado do mundo.
Calmamente vou até a central de informações e peço pro moço anunciar que eu estava por ali, vai que alguém não me viu, né. Era mais ou menos meio-dia. Espero. Nada. 5 minutos. Nada. 10 minutos. Nada. Vou até o telefone, disco os 372 números que a Telemar ainda teve a coragem de chamar de Brasil-Direto e ligo a cobrar para o Brasil. Murphy me deu um mordidinha na bochecha: não se fazem ligações a cobrar dos orelhões do aeroporto.
Sento, tento me acalmar e vou novamente na central de informações. Calmamente desabo na frente no moço.
"É que.. que.. não tem ninguém me es-esperaaaaaandoooo.."
O pobre do moço, tentando entender um inglês com sotaque no meio dos meus soluços consegue retirar a informação do nome do meu colégio, pega a lista telefônica e liga pra lá. Acho que eu estava num estado lastimável mesmo pro cara cuidar de mim dessa maneira.
"Pronto, estão vindo, mas vai demorar um pouquinho."
"Mu--sniiif-muito Obri-g-gaaaaada"
Sento, pego minhas palavras cruzadas e começo. E faço, e faço. Me divirto. Me entedio. Chegam pessoas e saem pessoas. E eu lá, imutável, quase parte do cenário. Quando finalmente, às CINCO HORAS DA TARDE, vejo alguém com o uniforme do meu colégio rondando por ali. Me identifico.
"Só vamos esperar mais 4 alunos que vão com você na mesma van."
"Ótimo."
E desde então Murphy foi me dando bitoquinhas: os 4 alunos eram chineses. Foram falando chinês do Heathrow até o outro lado da cidade. O único educado que conversou em inglês comigo cometeu a gafe de chamar Rio de Janeiro da capital do país. E o motorista foi rodando, as pessoas foram saindo e só eu ficando. Fui a última a chegar em casa, oito horas da noite.
Mas ao chegar em casa, a cereja no sundae, o que selou a minha união eterna com Murphy: A minha roomate era Argentina.
Raquel S2 Murphy
Comentários
E quantas lembranças da primeira vez! hahahaha!
Mas, concordo...Murphy estava juntinho de você!!!! Aliás, te carregando no colo! hahahah!!!
Não que eu não goste de você, mas vai que essas coisas são contagiosas...
Agora, eu acho que se você falasse urdu, seria muito pior. Imagina, o indivíduo ficaria tão feliz com isso que encheria seus ouvidos daqui até lá com tudo que ele nunca conseguiu falar com nenhum outro estrangeiro.
Ou se você entendesse chinês... saberia que eles estavam te sacaneando por ser a única não-chinesa da história.
Isso após viajar numa turbulência por duas horas e meia (saíndo de Montevidéu!) num avião que tinha "um desperfecto técnico".
Não nos deram comida e nem água e um brasileiro foi preso enquanto eu gritava "eu voto nele!".
Beijos
Depois desse dia eu aprendi a sempre levar uma muda de roupa na mala de mão.
Aliás, em urdu tem duas palavras pra "eu", uma pra cada gênero.