Capítulo 153 - Cocoon

Estava eu sentada no ponto de ônibus ao lado de um velhinho, esperado o tão amado 330 pra ir para a faculdade. Os ônibus aqui em Campinas têm hora marcada mas eu, em 2 anos dessa vida paulista, não me dei ao trabalho de procurar saber os horários, pois estou por demais acostumada com a rotina de cidadão carioca menosprezado pelos órgãos públicos.

Nem 30 segundos depois de eu me acomodar, sentou-se do meu outro lado um outro velhinho e eu me vi num sanduíche de idosos, onde eu era um recheio jovial envolto por dois pães que por acaso cheiravam a naftalina.

Passados 10 minutos, os velhinhos se ligaram que conheciam um ao outro e iniciaram o papo mais tragicômico do ano, e eu no meio:

- Ãh? Oi! Oi, Fulano!

- Oi, tudo bom?

- Minha mãe morreu!

- Ahn...

- Minha mãe morreu!

- Oi?

- A MINHA MÃE MORREU!

- QUEM MORREU?

- A MINHA MÃE!

- Ah. Bom, nada dura pra sempre, né.

- Ééé...

A julgar pela surdez e número de rugas de ambos, eu estimo uma idade aproximada de 130 anos pra mãe do cara. Mesmo assim, a insensibilidade da resposta foi de matar, aproveitando o trocadilho.

Dois minutos depois..

- Tá indo pra onde?

- Eu já me aposentei tem 10 anos!

- Não, não, pra onde você tá indo?

- Ah, to indo pra Barão!

- Vai pegar o 333?

- Não, o 330! Me deixa em frente do lugar que eu vou.

Que sorte a minha! Espero muito que esse simpático senhor cheio de histórias para contar não resolva se sentar do meu lado pra por o papo em dia, pois hoje eu simplesmente não estou no humor de ser simpática com estranhos que cheiram a naftalina. Já tirei meu iPod da mochila e coloquei os fones de ouvido pra criar o clima antissocial que é ignorado por 99,9% das pessoas com idade maior que 32 anos e enquanto isso o papo continuava...


- Você bebe pinga?

- Ahn?

- Pinga? Você bebe?

- Não, parei com isso. Quase enxuguei o bar ali de cima. Chegava às 10 da manhã, enchia a cara, acordava nem sabia onde tava. Já acordei do lado de caaadaaa mulheeer, meu amigo. Daquelas que nem dá pra saber se é mulher ou não.. 


OH, GOD, WHY?! Esse ônibus nunca demorou tanto! Por que, por que, por queeeee eu tenho que ficar  aqui sentada nesse ponto de ônibus visualizando a imagem desse senhor na melhor idade transando alucinadamente bêbado? Por que os velhinhos não podem guardar essas histórias para si? Por que a vida é tão injusta comigo?

E quando eu já estava sem saber se ria ou se chorava do conteúdo impróprio da conversa alheia, vejo dobrar a esquina, majestoso, verde e salvador o 330! Em câmera lenta ele se aproxima do ponto, eu levanto do banco num pulo, faço sinal e antes que o velhinho pudesse se dar conta de que o ônibus estava parado, eu já havia subido os degraus, passado a roleta e sentado ao lado de um adorável jovem que fedia a CC.

Yeah! 

Comentários

Luiz Fabiano disse…
"por queeeee eu tenho que ficar aqui sentada nesse ponto de ônibus visualizando a imagem desse senhor na melhor idade transando alucinadamente bêbado com um ser andrógeno?". Grandes momentos são feitos para serem compartilhados, é claro hahaha
Michele Pupo disse…
Raquel

Os tempo passa, o tempo voa, e a maleza que nos persegue continua numa boa!

Ninguém merece, né?!

rsrs


Beijos e bom domingo
Felipe disse…
Pelo menos você foi elemento passivo dessa história, né... Sua vida já foi pior!
Cler disse…
"Não, parei com isso. Quase enxuguei o bar ali de cima. Chegava às 10 da manhã, enchia a cara, acordava nem sabia onde tava. Já acordei do lado de caaadaaa mulheeer, meu amigo. Daquelas que nem dá pra saber se é mulher ou não..."

=O

E depois essa geração Dercy Gonçalves quer que a geração Restart tenha bons valores... Vê se pode?

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