Capítulo 183 - Vergonha parental
Eu ainda não tenho filhos, mas tenho um cachorro que me envergonha em igual proporção a esses tão lindos seres chamados crianças, dotados de imensas alegria e ingenuidade e mais imensa ainda sinceridade. Por sorte, a Kiwi não fala, mas o que ela já fez por aí não fica muito atrás das conhecidas pérolas infantis, no quesito "vergonha parental".
1) Certa vez estava eu voltando do aeroporto de taxi com a Kiwi. O dito cão encontrava-se levemente sedado e zonzo dentro de sua casinha de transporte devido à viagem e ao efeito do calmante veterinário. Aparentemente, outro efeito que o calmante tinha era o de gases e a cachorra foi a VIAGEM INTEIRA PEIDANDO PODREMENTE NO MEU COLO! O negócio estava tão tenso que começou a empestear o carro todo. E com que cara eu viro pro taxista e falo "Desculpe, foi o cachorro"?
Você acreditaria que foi ela olhando essa carinha fofinha?
2) E não é que apesar desse canino ser gordo, arfante e barulhento, ele é capaz de demonstrar rapidez, habilidade e discrição dignos de um verdadeiro ninja? Kiwi é lisa como quiabo. Este mês, ao abrir a porta de casa para o Boça entrar, ela sorrateiramente escapou entre as minhas pernas e resolveu adentrar o apartamento do vizinho, cuja porta se encontrava aberta. A bendita foi tão rápida e silenciosa que eu só tomei conhecimento de sua peripécia quando Boça falou "Raquel, acho que a Kiwi tá na casa do vizinho".
Envergonhei-me instantaneamente: corei e suei. Respirei fundo, retirei o salto 15 cm e adentrei eu mesma na casa alheia buscando incessantemente meu alvo e repetindo o mantra "Com
licença me desculpem com licença me desculpem com licença me desculpem...". Achei-a na cozinha. Corri para pegá-la, ela se esquivou. Observou o até então atônito dono do apartamento sentado em seu sofá comendo sua janta e subiu ao seu lado. Foi aí que consegui capturá-la, enquanto ainda dava uma cheiradinha no prato dele mas não tinha abocanhado nada.
3) Kiwi começou a desenvolver intolerância à ração que comia desde os 6 meses de idade, contudo, eu só fui descobrir essa condição após o trágico evento relatado a seguir.
Eu ainda não
namorava o Boça e este foi ao meu apartamento para vermos um filme
deitados no tapete da sala. Sentamos
no tapete. Kiwi sentou-se no sofá, acima de nós, rostinho coladinho com o Boça. Boça olhou pra ela, quase que começando a despertar um
sentimento de afeição pelo cão, quando este mesmo cão soltou o mais alto
e mais longo arroto canino que eu já presenciei. Na cara dele. Não
satisfeita, Kiwi desceu no sofá e prostrou-se ao lado do meu amado,
soltando uma bufa canina que poderia ser utilizada na fabricação de
armas químicas. Passados 30 minutos, Kiwi, ainda não satisfeita, quis
inteirar o C-C-C-C-C-COOOMBO! dos infernos e VOMITOU NO PÉ DO BOÇA!
(deveria ter tomado isso como um aviso. Kiwi nunca se engana.)

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