Capítulo 222 - Mudanças de perspectiva

Eu me mudei (de casa ou cidade) exaustivas 12 vezes durante os meus parcos 34 anos de vida. Eu sei que vocês estão morrendo de curiosidade, então lá vai: Macaé - Rio de Janeiro - Macaé (casa) - Macaé (apto) - Niterói - Campinas - Santa Bárbara d'Oeste - Americana - Rio de Janeiro - Niterói - Lavras (apto 1) - Lavras (apto 2).

Sim, eu sei que você já fez a conta, isso dá uma mudança, em média, a cada 2,83 anos. Contudo, a gente que trabalha um pouquinho com estatística bem sabe que média não significa absolutamente nada. Para ilustrar este fato, jogo aqui na roda que as últimas 7 mudanças ocorreram nos últimos 10 anos. 

Mudar muitas vezes me fez uma pessoa mais prática e menos desapegada com coisas e pessoas, porque você invariavelmente tem que fazer a sua vida toda caber dentro de um número limitado de caixas de papelão e simplesmente deixar para trás o lugar onde vivia. Quando eu me mudei de Americana para o Rio de Janeiro em 2015, eu percebi que eu ainda tinha coisas dentro da caixa da última mudança, que eu não tinha me dado ao trabalho de desencaixotar porque não precisei usar nesse entremeio. Foi quando eu percebi que talvez eu tivesse coisas demais e comecei a me livrar dos excessos. 

Entendo que as coisas não são apenas ferramentas com utilidades, algumas têm valor sentimental. Mas também não dá para colocar valor sentimental em tudo que você tem, vamos combinar. Uma colega minha da pós-graduação um dia me contou que ainda tinha os cadernos do colégio. Tudo bem você querer guardar UM, mas guardar todos? Ela me disse que era para caso quisesse fazer concurso ou ENEM novamente. Gente, internet tá aí e as ementas ficam defasadas. Isso não seria apego excessivo? Não coincidentemente, essa colega nunca tinha se mudado na vida.

Eu não estou aqui para pregar uma ode às mudanças. Inclusive eu já me encontro bem cansada e de saco cheio com toda essa situação. Também estou aflita, pois sei que ainda vou me mudar, no mínimo, mais duas vezes até ir para a minha casa definitiva. Chega, meu Deus, chega. Se mudar muitas vezes tem muitos lados ruins. Eu tenho certa dificuldade de me sentir "em casa", meio que um receio de me apegar aos lugares. Quase não tenho raízes, pois na cidade onde nasci e passei 15 anos da minha vida (Macaé) não tenho mais laços familiares e já não ponho os pés há 12 anos. Meu subconsciente, que não é bobo nem nada, gosta de lembrar de onde eu vim. Sempre que sonho que estou em casa, estou em Macaé. 

Apesar de todos esses poréns, acho se mudar uma vez ou outra na vida faz bem. É muito bom mudar de ares, de perspectiva, de lugar. Serve para valorizar o que realmente queremos levar conosco adiante e identificar o que só está ali ocupando espaço e pegando pó na prateleira. E se tem um trabalho doméstico que eu não gosto é de tirar o pó.

Comentários

Paulo Velho disse…
Eu defendo a teoria que toda pessoa deveria se mudar ao menos uma vez a cada dois anos.
Ajuda a limpar os excessos da vida, ajuda a rever suas posses, te obriga a conhecer novos lugares e novas pessoas.

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