Capítulo 229 - O fascínio pela falta de controle do tempo

Fim de semana passado eu assisti "O mapa das pequenas coisas perfeitas", um filme ao melhor estilo Sessão da Tarde, com aquela temática bem batida de anomalia temporal, onde um personagem vive o mesmo dia diversas vezes seguidas, enquanto para todos os outros seres humanos aquele dia é inédito e único. Sim, quase o mesmo enredo d'O Feitiço do Tempo, inclusive esse último filme é citado diversas vezes pelos personagens, como uma forma de fazer graça de si mesmo. Genial. A diferença é que, n'O mapa, existem dois personagens que estão presos nessa anomalia conscientemente. Claro que seriam uma menina e um menino brancos e que acaba rolando um romance entre eles, porque Hollywood parece que simplesmente NÃO CONSEGUE colocar um homem e uma mulher brancos e não fazer os dois tentarem se beijar no meio da trama (mas isso é assunto para outro post).

E eu me peguei pensando sobre esse fascínio que eu tenho pela temática do tempo. Me sugere um filme que tem anomalia temporal no enredo que eu vou assistir e vou amar. Já assisti O Feitiço do Tempo e Questão de Tempo tantas vezes que eu nem sei contar. Aparentemente, muito mais gente também tem essa fixação pela temática, parece que é universal. Eu chuto que deve advir de o fato de o tempo ainda ser uma das poucas coisas nesse mundão que os seres humanos não tem absolutamente controle algum. Nem pobre, nem rico. Ninguém consegue controlar o tempo, viajar para o passado, para o futuro, fazer o tempo parar. Está aí uma questão verdadeiramente democrática.

Sei que a "falta de tempo", a desculpa a qual muitos acabam se rendendo para justificar a inércia da rotina, me pegou. Já falei sobre isso aqui nesse blog,  no começo do ano. Então, ter tempo infinito me pareceu uma boa ideia para colocar as leituras e as séries em dia. Por outro lado, não daria para completar projetos a longo prazo (como escrever um livro ou apostila), porque toda meia noite o mundo dá reset. Então as opções de passagem de tempo acabam sendo bastante limitadas. Esse lance de os atos não terem nenhuma consequência também me parece ter um grande potencial de transformar o mundo num enorme WestWorld, só que com humanos mesmo. Pelo menos nos dias de tédio. Daí eu já comecei a me questionar se nós somos controlados pelas consequências dos nossos atos ou por nossa "bondade inerente" (existe isso? De novo, outro post).

Viver o mesmo dia todos os dias, sem saber quando nem se esse ciclo vai terminar, é se sentir totalmente livre ou totalmente preso? É uma amostra grátis do céu ou do inferno? É um deleite ou uma tortura? Ainda não sei. Sei que os três filmes mencionados aqui têm outra grande similaridade que é a "lição de moral" ao final: aproveite o dia a dia, veja beleza na rotina, nas pequenas coisas fantásticas que acontecem o nosso lado todos os dias e não prestamos atenção. E eu vou confessar: eu amo essa liçãozinha de moral. Cada vez mais tenho a certeza de que não vivemos para os grandes acontecimentos da vida, então uma ajudinha para me lembrar de aproveitar o dia sempre cai bem. 

É isso, vou rever Questão de Tempo hoje.

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