Capítulo 234 - Você não é o Pablo Marçal
O ser humano brasileiro tem uma característica específica que me dá nos nervos: é a necessidade de resolver o problema dos outros, mesmo não tendo sido requisitado. Veja, às vezes a pessoa te procura só para desabafar que a situação está difícil e receber uma palavra de conforto. Ela não foi atrás de uma consultoria em resolução de problemas pessoais, ela não pagou 5 mil reais por uma palestra do Pablo Marçal para ser humilhada em público por uma pessoa que ouviu exatas duas frases a respeito do seu problema e acha que sabe resolvê-lo.
Óbvio que a temática desse post não foi escolhida aleatoriamente, mas é um desabafo a respeito de todas as ideias e sugestões que eu ouvi ao longo desses 4 anos de casada, buscando transferência na UF para que eu e meu marido morássemos juntos finalmente. O pior é que muitas das vezes que eu recebia essas soluções retiradas da cartola eu nem tinha iniciado uma conversa a respeito do assunto, em primeiro lugar. As pessoas que perguntavam como estava a questão e, quando eu respondia que ainda não tinha sido resolvida, eu era inundava por uma chuva de sugestão merda.
Mas o meu objetivo com esse post não é apenas desabafar, jogar para o universo toda a frustração e raiva que eu passei ao longo desses anos, mas também conscientizar você, meu único leitor assíduo, para que não cometa o mesmo erro com os seus queridos. E para prepará-lo a responder de forma mais enfática, caso alguém comece com essa ladainha para cima de ti.
Aqui também tem informação e educação! Então repita comigo, como num mantra: "eu não sei mais a respeito do problema da minha amiga do que ela própria".
E nesse pequeno curso de "como não ser um amigo merda", eu vou te dar vários exemplos de como um problema que pode parecer simples de resolver (transferência entre UFs), na verdade é bem mais capcioso do que você imagina. E, se você não sabia nada a respeito desse problema em específico, é muito provável que você também não saiba nada a respeito do problema da sua amiga.
Primeira sugestão merda: Entrar na justiça.
Ao contrário do pensa o imaginário coletivo, dois servidores federais não têm direito de serem transferidos para ficarem juntos se, quando casaram, já eram servidores federais em locais distintos. A lei de acompanhamento do cônjuge é utilizada quando ambos já são servidores no mesmo local e um dos cônjuges é transferido a trabalho. Nesta ocasião, o governo é obrigado a transferir o outro cônjuge para acompanhá-lo.
Existem casos de casais que entraram na justiça e conseguiram transferência em situações distintas? Sim. Mas não é a regra, não era um direito nosso, advogado custa caro e processos judiciais levam bastante tempo.
Segunda sugestão merda: Fazer concurso na UF destino.
Para haver um concurso na UF destino, primeiro é necessário haver uma vaga na UF destino. Se houvesse vaga, então a transferência seria possível, sem necessidade de concurso. Não houve transferência antes, pois não havia vaga disponível na UF destino.
Terceira sugestão merda: Fazer concurso ou ser transferida para uma UF em outra cidade, ou até outro estado, mais próximo.
Aqui a gente já começa a entrar na seara de sugestões muito merda.
Primeiro que a gente não queria ficar perto, a gente queria ficar juntos. Estar 250, 400, até 600 km distantes um do outro não era suficiente. É suficiente para você ter que pegar estrada toda semana para ver seu cônjuge? Então porque você sugere isso para os outros?
Você sabia que o servidor não tem o direito de ir para onde ele quer? Não basta apenas a vaga existir; a UF destino precisa analisar seu currículo, verificar se é compatível com o que eles precisam e aceitá-lo. A recusa não precisa nem de justificativa plausível, verificável. A UF tem autonomia para simplesmente recusar, pois "o servidor não tem o perfil procurado". Além disso, a UF de origem precisa te liberar.
Segundo que o processo de transferência é complexo e demorado. Justamente por isso, o servidor público não pode pedir transferência quando quer. A minha transferência para a Unipampa levou 9 meses de burocracia, estando ambas as partes já de acordo para início de conversa.
Por último, para ser transferido, o servidor não pode estar em estágio probatório (3 anos desde a posse) e não pode pedir duas transferências em menos de 3 anos. Ou seja, fazer concurso ou pedir redistribuição para outro lugar, seria apenas determinar que o casal ficaria separado por, no mínimo, mais 3 anos.
As pessoas tem tão pouca vergonha de dar sugestão merda, que teve gente até sugerindo de fazer concurso para universidade estadual de outro estado. Se ser servidor federal e conseguir transferência pra outra instituição federal já é difícil, imagine ser servidor estadual e conseguir transferência para outro estado? Vocês são tudo doido. Na ânsia pra ajudar, vocês só enchem a porra do saco.
PENSEM UM SEGUNDO NO QUE VOCÊS ESTÃO FALANDO.
Por isso, vamos terminar o nosso curso básico com a segunda parte do mantra que vocês vão repetir incansavelmente dentro da cabecinha de vocês: "Antes de sugerir uma solução esdrúxula, eu vou perguntar o máximo que posso para entender o contexto e o que já foi tentado/feito".
Eu passei 4 anos ouvindo as pessoas insinuarem que nós estávamos sentados esperando um milagre acontecer e a transferência cair no nosso colo.
Caia na realidade: você não é o Pablo Marçal. Você não vai ensinar o piloto de helicóptero a pousar a aeronave. Você não vai aprender a nadar num dia e competir natação no dia seguinte. Você, no máximo, vai tentar fazer uma cadeirante voltar a andar com a força do pensamento e, ao constatar que não consegue, jogar a culpa do fracasso na própria cadeirante.
Pela atenção, obrigada.
Comentários