Capítulo 237 - O Fantástico Mundo da Realidade
Era uma manhã inacreditavelmente fresca de uma quinta-feira de dezembro quando Percival, ainda deitado na sua cama, pegou o celular. Sabia que esse era um hábito que deveria mudar. Ninguém pode começar o dia trabalhando ainda deitado, sem escovar os dentes, tirar as remelas dos olhos e tomar pelo menos uma xícara de café. E apesar de nos últimos dias ele ter conseguido segurar essa urgência até o momento de outra urgência no banheiro, hoje parecia que algo o chamava de dentro daquele aparelho. E não eram as notificações, pois ele as havia desativado todas. Era algo grande, que iria mudar sua vida.
O símbolo da cartinha fechada na barra superior da tela indicava a presença de um e-mail não lido. Mas não era isso, isso não era novidade. Ele recebia mensagens e solicitações dos clientes todos os dias fora do horário de expediente. Jamais pensara que trabalhar com venda de mudas de suculentas o traria clientes tão fervorosamente ansiosos. Contudo, o trouxe, principalmente depois da hashtag #JuicySuculentasLady no Instagram ter bombado.
Entrou no aplicativo do e-mail e se deparou com um remetente e um assunto inusitados: Escola de Bruxaria de Vassouras – Convite para curso de verão. Obviamente estranhou, mas não a ponto de achar que se tratava de um trote. Aliás, desde criança ouvia falar da existência de bruxos no mundo real e das escolas de bruxarias, só pensava serem lendas urbanas. Na verdade, seus próprios pais o haviam convencido disso, era o lógico a se fazer. E convenceram com muito custo, uma vez que Percival estava bastante convicto de que bruxos eram reais depois de ler os sete livros e assistir todos os oito filmes do Harry Potter incontáveis vezes. Seus pais nunca haviam se arrependido tanto de ter estimulado a leitura numa jovem mente.
Agora estava ali a prova: bruxos e escolas de bruxaria existem e tudo começava a fazer muito mais sentido. A começar pelo seu nome, Percival. Era nome de bruxo. Ok, tudo bem que seu sobrenome era Santos, pois tinha nascido no Brasil. Não dava para esperar que ele fosse um Longbottom, sendo filho de Santos e Silva. Um pouco de verossimilhança sempre faz bem mesmo às fantasias mais irreais.
Seu coração disparou. Uma inquietação tomou seu corpo e, de repente, ele não conseguia mais ficar deitado em sua cama. Levantou-se de supetão. Sua pressão caiu e o próprio Percival caiu também de supetão logo em seguida. Sentou-se no chão e assim permaneceu por alguns segundos. Depois calmamente apoiou as mãos no assoalho e impulsionou o corpo gentilmente para cima, até se manter em pé. Melhor ir vagarosamente dessa vez, Percival. Retirou a poeira dos joelhos e do traseiro com as mãos olhando para os lados, levemente envergonhado. Mas Percival não precisava se constranger ou se preocupar, pois morava sozinho havia anos e ninguém tinha testemunhado essa cena lamentável.
Foi até a cozinha e bebeu um copo de água em goles pequenos, tentando se acalmar. Isso estava acontecendo mesmo, ele iria para uma escola de bruxaria. Finalmente! Foi ao banheiro e passou uma água no rosto, retirando as remelas grudadas nos cantos internos de ambos os olhos. Inspirou fundo e exalou ruidosamente, como que tomando coragem. Pegou o telefone celular e teclou os números que constavam no rodapé da mensagem eletrônica. Sentou-se no sofá. Não poderia correr o risco de cair ridiculamente duas vezes no mesmo dia. Apertou o botão verde e a linha chamou por três vezes.
Tu... “Essa história toda é um absurdo”, ele pensou. Tu... “Deve ser um trote, não podem existir escolas de bruxaria e eu só estou descobrindo isso aos 36 anos de idade”. Tu... e quando estava prestes a desligar, uma senhora atendeu do outro lado.
— Escola de Bruxaria de Vassouras, aqui é Pâmela.
— Eeeer, bom dia, Pâmela... — ele buscava as palavras cuidadosamente. — É que eu recebi um e-mail aqui me convidando para um curso...e eu estranhei, sabe, escola de bruxaria... — Percival usava um tom que a qualquer momento poderia ser trocado por um “aaah, é claro que eu sabia que era uma brincadeira”.
Não era uma brincadeira.
— O que é estranho para o senhor? A Escola de Bruxaria de Vassouras é uma das mais tradicionais e conceituadas da América Latina. Em 150 anos de existência, nós já formamos milhares de bruxas, bruxos e bruxes na região.
— Não, eu não estou questionando a credibilidade da instituição, de forma alguma — ele se desculpou. — É só que... — Percival inspirou fundo novamente. — eu estava esperando uma coruja com uma carta fechada com selo de parafina — ele expirou todas as palavras de uma só vez.
— Senhor, mais uma vez eu vou pacientemente explicar para o senhor, nós somos uma instituição séria. — Agora quem respirava fundo era Pâmela — Nós não utilizamos trabalho forçado em animais há mais de um século. Desde o advento do telégrafo nós paramos de utilizar corujas, pombos-correios, lebres enfeitiçadas ou qualquer outro animal. Com a fundação da Empresa de Correios e Telégrafos do Brasil, nós deixamos a cargo dos funcionários humanos de entregarem nossa correspondência e, com a popularização da internet, bem, para que então nós iríamos sobrecarregar esse sistema, gastar papel e outros tantos recursos?
— Faz sentido... — ele mentiu. Percival estava confuso e, na sua cabeça, nada daquilo fazia sentido. Onde estava a sua coruja mensageira?
— Bom, mas qual o seu nome mesmo, senhor?
— É Percival — ele ouve Pâmela digitando morosamente do outro lado da chamada.
— Estou verificando aqui que o senhor foi convidado a fazer um curso de verão na nossa escola, não é? Como o senhor já é formado no ensino médio, o curso formal de três anos poderia ser um pouco fora da realidade, então nós oferecemos esses cursos em módulos mais curtos que podem ser feitos de forma avulsa nas férias trabalhistas. Ao completar um total de 300 horas de cursos, o senhor pode pedir a emissão de um certificado de Bruxo Iniciante.
— E como que é esse curso? É pago?
— Não, claro que não. Você talvez precisará comprar alguns materiais para aula de uso pessoal. A gente anda recebendo cada vez menos verba do governo, sabe como é. — Percival não sabia. Mas aparentemente, o governo sabia. Sentiu como se fosse o último a saber que aquela escola existia. — A lojinha fica aqui no campus mesmo, você pode encontrar tudo por aqui.
— E o pagamento desse material é feito de que forma? A minha família é trouxa, eu não tenho moedas de ouro nem nada assim.
— Senhor Percival, eu não estou nem um pouco interessada no histórico de vitimização em golpes da família do senhor. Se é trouxa, se é malandra, isso aí é com o senhor e com eles. E moedas de ouro não são utilizadas como moeda corrente já tem alguns séculos no nosso mundo. A nossa lojinha aqui aceita cartão de débito, crédito, PIX.
— PIX? — Percival não gritou, mas perguntou com curiosidade. Siglas podem enganar na linguagem escrita. Como se grita uma sigla?
— O que for mais conveniente para o senhor. Dá até para dividir sem juros em algumas parcelas no crédito, se ficar pesado comprar de uma vez só. Mas não costuma ser muito pesado financeiramente, depende muito dos módulos que o senhor escolher.
— Entendo, entendo... — Ele se levantou do sofá e se dirigiu à cozinha. Sua cabeça começava a trabalhar de forma mais clara. — E sobre as disciplinas desse curso? O que a gente estuda? Poções?
— São diversas opções. O senhor pode entrar no nosso site e verificar quais módulos lhe agradam mais. Também pode nos fazer uma visita este final de semana, se quiser conhecer melhor nossa estrutura, conversar com professores, outros alunos, se isso for te ajudar a tomar a sua decisão.
— Claro, claro. Como posso agendar? — Pensou um pouco mais e completou. — E como eu chego aí?
— Não precisa agendar, estamos abertos à visitação todos os sábados. É só chegar aqui que alguém te acompanhará. Quanto à localização, é só colocar no Google Maps que ele te indica. Você pode vir de carro mesmo, a rodovia que passa por aqui está em excelentes condições.
— Não tem um trem? Achei que o pessoal ia de trem para a escola de bruxaria, pegava numa plataforma mágica ou algo assim. — Percival já estava mais à vontade com a situação para fazer as perguntas que considerava absurdas naturalmente.
— Olha, os alunos das escolas de bruxaria na Europa até vão de trem, mas lá a malha ferroviária é levada a sério pelos governantes. Aqui a malha ferroviária é uma piada, não tem milagre ou magia que faça ela servir ao transporte de pessoas. Então sobra o carro mesmo para mim, para você, para os professores...
— Ok, de carro então. Google Maps. Obrigado.
— A Escola de Bruxaria de Vassouras agradece o contato. — E desligaram.
***
No sábado seguinte, Percival acordou cedo, antes das sete. Já havia separado roupas e preparado lanchinhos no dia anterior para levar na viagem. Não queria ter a remota necessidade de comer algo diferente ou asqueroso, como tentáculos de algum bicho ainda desconhecido por ele. Também já havia alugado um carro especialmente para a ocasião, uma vez que seria difícil chegar ao local de transporte público, e traçado a melhor rota por meio do Google Maps.
Google Maps.
Google.
Fechou os olhos e se martirizou por alguns segundos. Sempre esteve lá, com avaliações, comentários e tudo. Bastava ter feito uma simples procura, mas o seu lado racional por tanto tempo sufocou seus sonhos que o impediu até de digitar as palavras na barra de procura.
Banhozinho, barba feita, loção pós barba, vestes impecáveis. Apesar do calor quase escaldante do verão do Rio de Janeiro, vestiu o sobretudo que ganhara do seu pai sete anos antes, para sua viagem a Gramado no inverno. Achou que combinaria mais com a ocasião. Só ficou na dúvida de qual cor de gravata utilizar. Não queria entrar na Escola de Bruxaria já com uma ideia pré-concebida de quem seriam os seus amigos, então optou por uma gravata prata com listras roxas. Não exatamente a escolha mais elegante, mas, de fato, a mais isenta.
Dirigiu por duas horas e meia completamente concentrado nos episódios de podcast que baixara sobre o assunto. Pottercast, Potterhead, Cast-a-spell, entre outros. Queria que o tempo voasse até que chegasse em Vassouras. Será que iria aprender a voar de vassoura? Em Vassouras? Será que a cidade foi escolhida por conta do trocadilho? E imerso nesses questionamentos nada produtivos ou mesmo lógicos, pouco depois das nove da manhã Percival chegou à cidade.
Após algumas viradas à direita, à esquerda e um pequeno percurso em estrada de terra, adentrou os portões da Escola de Bruxaria. Logo na entrada, uma placa o direcionou ao estacionamento, por meio de um belíssimo caminho margeado de palmeiras imperiais. Parou o carro na vaga, desceu do veículo, fechou a porta e inspirou longamente. Então esse era o ar da magia. O calor da magia logo atingiu seu corpo ainda gelado por conta do ar-condicionado e Percival decidiu que era melhor deixar o sobretudo no veículo para o passeio turístico. Aproveitou e pegou sua bolsinha com os lanchinhos. Vai saber.
Enquanto caminhava guiado pelas placas em direção à secretaria, contemplava ludicamente como o dia estava bonito, as folhas das árvores mais verdes e as flores mais coloridas, a grama milimetricamente aparada. “Deve ser um feitiço”, pensou Percival, que nunca em sua vida relativamente triste e urbana havia presenciado tanta exuberância. Quando voltou os olhos para o caminho, deparou-se finalmente com a sede principal da Escola.
Bem a sua frente erguia-se uma imponente edificação colonial de dois andares. Diversas janelas retangulares coloridas pontilhavam as paredes frontais todas em branco, dos dois lados simétricos divididos pelo portal principal em arco. As venezianas pintadas de azul contrastavam belamente com os ornamentos de madeira pintada em amarelo gema. Percival as contou e, se cada uma fosse uma sala, então haveria ali umas quarenta, facilmente. Ao redor, alguns pequenos grupos extremamente diversos se reuniam e riam em voz alta. Percival foi achando caminho entre as pessoas, de todas as idades, cores e estilos, devolvendo sorrisos aqui e ali.
Quando finalmente cruzou o portal em arco, foi tomado por um silêncio absoluto. Olhou para trás assustado e pode perceber que os grupos continuavam conversando e rindo efusivamente. “Feitiço, certeza”, ele falou em voz baixa. Por trás do arco, se estendia por dois metros uma varanda coberta pelo andar de cima do prédio. Os ladrilhos vermelhos quebradinhos no chão, como um mosaico, lembraram Percival da casa de sua vó. Uma decepção surgiu no coração desatento do nosso amigo que, sem se atentar que o estilo gótico não fizera muito sucesso no Brasil, esperava gárgulas nas paredes. Adentrou a porta lateral esquerda, ao lado da porta principal, onde se lia numa placa “Secretaria”. Instantaneamente passou a ouvir uma música tibetana de meditação ao fundo e a sentir um cheiro de incenso nag champa. Por detrás de um balcão de madeira que dividia a sala, sentada em uma pequena mesa de escritório também de madeira, estava digitando no teclado com bastante morosidade uma senhora de meia idade. Era Pâmela.
— Pois não? — ela perguntou, sem desviar o olhar da tela do computador. Continuava a digitar: tec... tec... tec...
— Errrr, bom dia — ele arriscou o início de uma conversa.
— Bom dia — ela respondeu, ainda sem dirigir o olhar a ele.
— É que eu recebi um convite... — tec... tec... tec... — Um e-mail, na verdade, para vir estudar aqui nas férias. — Ainda nada de ter a atenção da secretária. — Meu nome é Percival.
— Ah, sim. — Pâmela falou sem emoção. Virou-se para Percival, analisando-o de cima a baixo. — Você é o que tem cara de trouxa. — Apertou um botão na base de um microfone. Uma leve microfonia tomou os alto-falantes presos nas paredes do local. Bateu duas vezes na cabeça do aparelho para testar seu funcionamento, ignorando a óbvia mensagem passada pela microfonia. — Carlos, favor se dirigir à secretaria. Carlos.
Desligou o microfone e continuou digitando no teclado.
Tec... tec... tec... tec...
A música mística e o cheiro de incenso, que deveriam acalmar Percival, juntamente com o som das teclas tartarugamente apertadas pela secretária, apenas montaram o combo perfeito para que seu nível de ansiedade chegasse a mil.
Tec... tec... tec... tec...
Percival coçou a testa e o queixo. Não era possível essa demora. De onde Carlos estava vindo? Da própria Hogwarts? E, se sim, por que não aparatou de vez em Vassouras?
Tec... tec... tec... tec...
E quando o coração de Percival já alcançava 130 batimentos por minuto em repouso, um adolescente recém-saído do colégio, de pouco mais de dezoito anos e mochila jeans nas costas, entrou num arrombo na secretaria, quase trazendo de presente de boas-vindas para Percival um ataque do coração. O acompanhavam mais duas pessoas: um senhor de quase cinquenta anos de idade, trazendo uma bolsa estilo carteiro atravessada no tórax e com o topo da cabeça obviamente calvo, coberto por uma boina, e uma garotinha que se tivesse doze anos de idade era muito, maria-chiquinhas e tudo, levando uma mochilinha cor de rosa de rodinhas.
— Opa, você deve ser o aluno novo. — Carlos educadamente estendeu sua mão.
— Sim. Percival, prazer. — O cumprimentou.
— Prazer, meu nome é Carlos. Esses aqui são o Zé e a Bruninha. — Ele apontou para cada um deles, enquanto falava seus nomes. Zé e Bruninha o cumprimentaram com um aceno de cabeça e um sorriso cada. — Nós estamos aqui para mostrar o campus para você e tirar algumas da milhões de dúvidas que devem estar pipocando na sua cabeça agora.
— HA-HAM! — Pâmela ruidosamente coçou a garganta, num claro sinal de que gostaria que se retirassem.
— Vamos lá fora e te explico tudo. — Saíram os quatro da secretaria, um de cada vez, despedindo-se timidamente de Pâmela.
Instantaneamente após cruzarem o portal em arco em direção ao gramado, o falatório das conversas e risadas voltou.
— Primeira pergunta. — Percival se sentiu impelido. — Esse isolamento acústico...
— Sim, feitiço. — Carlos não o deixou nem terminar de elaborar a questão.
— Legal! — Ele riu, animado. Continuou. — As plantas aqui parecem saídas de uma pintura. Feitiço também, né?
— Não, isso é só o ar puro do interior mesmo. E os jardineiros daqui são muito competentes. — Zé respondeu alegremente. — Você é da capital?
— Sim.
— Como eu suspeitava. — Ele riu.
— Vamos andando! — Carlos puxou o grupo. — Quero te mostrar a cafeteria daqui. Você gosta de café?
— Sim.
— Então você vai amar esse lugar. — Pegaram a direita em relação ao prédio principal e começaram a caminhar pelo calçamento em pedras em cima do grama verde. — Manda mais perguntas.
Percival estava simplesmente hipnotizado pelo local. A alegria de um belo sábado ensolarado e a perspectiva de novos amigos eram tão inebriantes quanto o cheiro de café que já chegava às suas narinas.
— Hey, você? Mais nada? — Bruninha perguntou. Percival saiu do seu transe.
— Claro, claro, tenho um monte de perguntas ainda. — Limpou a garganta e lançou. — Como é o critério de seleção para estudar aqui? Eu recebi um e-mail me convidando e fiquei curioso sobre como eles tiveram acesso aos meus históricos familiares e escolares. Como eles sabiam que eu era um bruxo?
— Critério de seleção? — Eles se entreolharam. Carlos respondeu. — Não existe... um critério... de seleção...?
— Então como eles sabem quem é bruxo e quem não é?
— Também não existe isso de não ser bruxo. Todo mundo pode ser bruxo se estudar direitinho e tirar notas boas. — A boa aluna Bruninha repetiu as frases que seus professores insistentemente martelavam na cabeça dos alunos mais jovens.
— Eu não quero ser a pessoa que vai destruir seus sonhos, Percival, mas a Escola manda esses convites aleatoriamente numa base de dados que eles compraram. Você fez compras na Shopee recentemente?
— Sim...
— Então. — Carlos concluiu. —Não é ético, mas funciona.
Percival ficou estarrecido e estacou no lugar. Como coincidentemente haviam chegado ao destino, ninguém reclamou da falta de movimento.
— Bom, chegamos. — Carlos apontou para a direita da calçada, onde se encontrava um belíssimo quiosque de estruturas de madeira e aço. Ao redor deste quiosque, como não poderia deixar de ser, um gramado em perfeitas condições de jardinagem, salpicado de mesinhas de madeiras, feitas com seções transversais de troncos, acompanhadas de cadeiras de madeira e aço, algumas ocupadas por alunos e professores da Escola de Bruxaria. De dentro, uma bossa nova apontava.
— Você está bem? — Perguntou Carlos, ao perceber que Percival estava chateado. — Quer aproveitar para comprar um café para te animar? O Latte daqui é fantástico.
— Estou bem. — Percival respondeu pensativo. — É que eu sempre tive esse senso de pertencimento a um mundo diferente do que eu vivia, sabe. Desde que eu li o primeiro livro de Harry Potter, eu sabia que tinha algo diferente em mim.
— E quantos anos você tinha quando o leu? — Zé curiosamente perguntou.
— Uns dez... onze anos, acho.
— É, eu também tive esse sentimento ano passado quando vi o primeiro filme. — Percival olhou Bruninha como se ela tivesse confessado um crime. — Sou de uma geração que primeiro vê o filme e depois lê o livro. — Deu de ombros e saiu andando em direção ao caixa da cafeteria.
— E essa é uma sensação normal nessa idade, é a necessidade de se encaixar em um grupo que não existe de fato ainda na nossa realidade para nos confortar de que não estamos completamente sozinhos. — Zé falou com uma naturalidade admirável. Percival ficou atônito com o diagnóstico.
— Ah, esqueci de te falar. O Zé é um psicólogo renomadíssimo. — Carlos terminou de apresentar seu amigo, que acenou amigavelmente. Percival tentava assimilar todas as informações novas.
— E também tem a questão do meu nome, né. Percival. Meus pais nunca souberam me explicar por que escolheram esse nome para mim.
— Bom, eu me chamo Carlos e estou aqui também.
— Sim, mas...
— E eles são literalmente José e Bruna. Dois nomes bastante comuns. Você é o único que tem um nome esquisito assim aqui. — A paciência de Carlos parecia se esvair aos poucos. — Ah, não. Tem o Juscelino também, Juju, mas é uma homenagem ao bisavô dele que nasceu em 1920. — Lágrimas umedeceram os olhos de Percival. Bruninha, que voltara da cafeteria, percebeu o semblante do recém-amigo.
— Não fica assim, Val. — Bruninha ofereceu um pacotinho que comprara na cafeteria para Percival. — Toma. Come isso. Vai te deixar mais feliz.
— Você não prefere me chamar de Percy? — Ele olhou cuidadosamente a embalagem. Um chocolate em forma de sapo. Percival pegou o chocolate e ficou longos segundos encarando o doce, esperando que algo fosse acontecer.
— Muito americanizado, vocês não acham? — Carlos perguntou ao grupo, que concordou com veemência. — Vamos de Val por aqui. Pode ser?
— Val, — Zé continuou sua análise sem esperar a concordância do nosso amigo protagonista. — É normal essa necessidade de se sentir especial, especialmente nas gerações Millennial e Z. Parece que ouviram demais os pais dizendo que eram inteligentíssimos na infância para compensar a ausência por estarem no trabalho.
Como nada aconteceu com o chocolate sapo, Val devorou todo o conteúdo do envelopinho por inteiro em uma só bocada. Era delicioso.
— Ajudou mesmo, obrigado — Val agradeceu à Bruninha ainda de boca cheia, ignorando Zé.
— Você não está com fome agora? — Carlos perguntou, tentando desfazer o climão instaurado. Val negou com a cabeça. — Ok, no final do tour a gente pode parar aqui para você comer uma coxinha de frango vegano com catupiry. Simplesmente sensacional. Esse prédio aqui na frente é a biblioteca. Você quer conhecer algum lugar específico?
— Onde compro os materiais? Existe algum beco onde eu possa comprar os pergaminhos, as penas?
— É o que? — Carlos quase gritou, mas, percebendo que seu tom de voz estava beirando o agressivo, coçou a garganta e pacientemente devolveu a pergunta. — De que pergaminho você está falando, brother?
— Para fazer as anotações das aulas...
—Que isso, cara. A gente aqui não é uma civilização isolada do resto do mundo, não. — Carlos inspirou fundo. — A gente usa eletricidade, internet, toma vacina, tudo isso.
— A escola empresta notebooks para os alunos usarem durante o curso, caso você não tenha um. É bom para rever os slides de Power Point que os professores passam durante a aula. — Bruninha alegremente informou.
— Você recebeu um convite por e-mail, cara. Como assim “pergaminho”? — A desolação de Carlos parecia não ter fim.
— Se você gostar de fazer as anotações à mão, pode utilizar caneta bic e um caderno Tilibra 10 matérias mesmo. No andar de baixo da biblioteca tem uma lojinha que vende esses itens de papelaria. — Zé deu a sua contribuição.
— O meu caderno é de poney, olha só — Bruninha tirou o material de dentro da sua mochila rosa de rodinhas e mostrou para os amigos.
— É lindo o seu caderno de poney. — Val lembrou-se que lidava apenas com uma criança. Uma criança aprendiz de bruxa, mas uma criança. — Bom, desses cadernos normais eu tenho em casa, então... — Procurava dentro da cabeça mais alguma pergunta importante. — E a varinha? Os ingredientes para as aulas práticas?
— Caraca, varinha? Mais essa, camarada? Isso aí é palhaçadinha de Hollywood. — Carlos novamente inspirou profundamente e disse de forma solene. — A magia está dentro de você.
— Então é só falar o feitiço para o ar?
— É só falar o feitiço para o ar, mas com boas e verdadeiras intenções. — E sobre as aulas práticas, você deve estar falando do material para as poções...
— Ah! Então vocês fazem poções! Finalmente algo que eu estou familiarizado! E onde eu consigo esse material? Vende na lojinha da biblioteca?
— A maior parte você pega na horta de ervas medicinais mesmo. Você tem que ver, que coisa mais linda. — Os olhos de Zé até brilhavam. — Eles até te dão uma muda se você quiser cultivar em casa para as porções de cura. Eu tenho um pé de alecrim e outro de cânfora que sempre me socorrem nos resfriados. É tiro e queda.
— Então as poções de cura são chás de ervas medicinais?
— Sim, a gente aprende todos os benefícios dessas ervas. É minha aula favorita. — Bruninha respondeu animada. — Eu ensinei para o meu pai e ele usa para fazer óleos, velas e sabonetes terapêuticos também. Está ajudando bastante com as contas lá de casa.
— E as outras doenças mais sérias, tipo câncer?
— Câncer não tem cura, rapaz. — Zé respondeu com o maior tom de obviedade que conseguiu.
— Nem com mágica?
— Nem com mágica, pô! — Carlos se exasperou. — Você acha que a gente teria a cura do câncer e não falaria nada para ninguém? Não somos monstros!
— Existem monstros? — Val perguntou de olhos arregalados.
— Do que você está falando? Que monstros? — Carlos estava quase começando a se divertir com a situação.
— Os cachorros de três cabeças, aranhas gigantescas...?
— Existem aranhas gigantescas? Aqui na Escola? — Bruninha quase entrou em pânico. — A direção sabe disso? Se eles sabem, falaram para os nossos pais? Eu só tenho dez anos, minha mãe jamais me deixaria vir para uma escola com aranhas gigantes.
— Calma, Bruninha, não tem monstro nenhum. — Carlos abraçou a menininha e a acalmou. — O nosso amigo aí só está muito doido. Imagina se os pais iriam deixar os filhos sob a tutela de uma escola que tem monstros, tirar da segurança do lar para correr risco na escola. Eu acho que de mágico o Val comeu foram uns cogumelinhos.
— Olha, eu acho que a gente deveria levar o Val para conversar com algum professor. O que vocês acham? — Zé sugeriu.
— Boa! Vamos levar ele na sala da Professora Flávia. Ela é bem legal. — Carlos completou.
— Eu vou para a Biblioteca estudar para a prova de história de segunda-feira. — Bruninha se despediu.
— História da Bruxaria? — Val ficou curioso.
— História, história mesmo. História do Brasil e história do mundo. Tenho que seguir toda a ementa do ensino fundamental do MEC, além da Escola de Bruxaria. — Bruninha deu de ombros e saiu.
Voltaram os três ao prédio principal em poucos passos. Entraram pelo portal principal, cruzando o feitiço do isolamento acústico, mas, desta vez, cruzaram um segundo arco, que dava a um amplo salão. Neste espaço, uma escada de mármore branco com largos corrimãos fazia uma curva pela direita, margeando a parede. À esquerda, havia uma porta para um refeitório. Ao fundo, podia-se ver aberta uma porta para um pátio, que continha algumas mangueiras bastantes altas. Val podia ouvir o som de macaquinhos pulando de um galho para o outro e chamando os outros membros do grupo com gritos agudos.
Subiram ao primeiro andar, andaram por pouco mais de dez metros à direita e pararam. Carlos bateu por três vezes a porta.
— É aqui a sala da Professora Flávia. Te deixamos aqui. Espero que você venha fazer o curso de verão com a gente.
— Obrigado, Carlos. — Apertou-lhe a mão. — Falou Zé, prazer em conhecê-lo.
Poucos segundos se passaram até que uma mulher de aparentemente a mesma idade de Percival, vestida com uma calça de alfaiataria preta e uma blusa rosa com renda nas mangas atendeu.
— Pois não?
— Professora Flávia? Meu nome é Percival, fui convidado para fazer um curso de verão aqui e os alunos mais antigos me indicaram a senhora para tirar algumas dúvidas a respeito de o que é ser bruxo.
— Claro, prazer, Val. — Ela cumprimentou um Percival levemente confuso pelo tratamento, o convidando para entrar na sala e fechando a porta atrás dele. — Sente-se.
A sala da professora Flávia parecia um pequeno santuário de novas invenções. Nas paredes brancas, estantes de madeiras ostentavam diversos objetos brilhantes.
— Essa é a minha coleção de minerais. Sempre gostei muito de geologia — a professora explicou, percebendo o interesse de Val. — Essa aqui é a mica, olha só como ela brilha. Parece mágica. — Ela zombou do nosso amigo. Pegou outro espécime ainda dentro de uma cúpula de vidro e entregou a Val. Prontamente, ele abriu o recipiente para tocar o material. — Esse aqui também brilha bastante, mas acho que é tóxico, se eu fosse você não tocaria.
Val largou o objeto abruptamente, que caiu no chão. Flávia o colocou de volta ao recipiente de vidro e, após, na estante, com movimentos suaves das mãos, utilizando telecinese.
— Sim, usamos telecinese. — Ela o confirmou. — Olha, é comum os alunos chegarem aqui bastante enviesados por conta das histórias de Hollywood, os livros do Harry Potter, etc. A gente precisa fazer um detox com muita delicadeza para não causar um trauma de infância tardio. Essas histórias pegaram tradições de séculos atrás, quando a bruxaria começou a surgir, e trouxeram para o presente sem nenhuma adaptação tecnológica, ou só as adaptações que são convenientes para o enredo, né. — Ela pega o celular e abre o aplicativo do WhatsApp para verificar as mensagens. — Gente, quem que vai fingir que eletricidade não existe, em pleno século XXI? Fico até levemente ofendida com isso. A gente não é idiota, não. — Ela dá uma risadinha e vira o celular para ele. — Já viu esse meme? É muito engraçado, eu rio toda vez...
— Errr, bom, eu tenho mais algumas dúvidas específicas, se a senhora puder me ajudar.
— Pode me chamar de Flávia, eu devo aparentar a sua idade.
— Uns 35? — Val arriscou.
— Foi isso que eu pedi ao dermatologista.
— Acertou em cheio, então. — Ela sorriu. — Bom, vamos às dúvidas que eu não quero tomar muito o seu tempo. Por exemplo, voar em vassoura.
— Não se faz mais. — Ela se levantou e foi em direção à mesinha lateral. Voltou com um pacote de biscoitos sequilos aberto nas mãos e alguns biscoitos na boca.
— “Mais”? Então vocês voavam em vassouras? — Pegou meia dúzia de biscoitos e começou a comê-los como pipoca.
— Sim, vassouras, rodos, o que estivesse por perto e desse para colocar o feitiço. Mas isso dava tanta confusão, Val. Era gente se batendo no ar, caindo lá de cima, fraturando osso. Aí colocaram idade mínima para pilotar, curso de formação de voo... — Flávia bebeu um pouco de água para desgrudar o biscoito do céu da boca — Odeio quando isso acontece. Enfim, eu e muita gente preferimos evitar a fadiga e andar mesmo. Pelo menos, andando os prejuízos são menores caso aconteça algum acidente. Ainda tem uma galera viciada em adrenalina que gosta de voar, eu só acho que não compensa.
— E a Rede de Flu? Tem? — ele perguntou com a boca cheia, cuspindo farelos em cima da mesa.
— Rede de que? — Ela também cuspiu farelos.
— De Flu. Pega um pozinho verde, joga na lareira, aparece em outra lareira em outro lugar do mundo.
— Ah, tá, o lance do pozinho verde. O teletransporte é bem útil mesmo, a gente usa sempre. Mas não tem pozinho verde e lareira, não. É uma máquina daquela ali. — Flávia apontou para o canto da sua sala atrás da porta, onde havia um grande escâner, que mais parecia uma máquina de ressonância magnética disposta na vertical. — Chega. Esse negócio vicia. — Tomou mais um copo d’água e fechou o pacote de biscoitos. — Esse modelo já está ultrapassado, hoje em dia existem outros menorezinhos.
— Aí sim eu vi vantagem de ser bruxo. Mas opera com magia?
— Uma mistura de magia com tecnologia. Em longas distâncias ainda pode dar problema na hora de fazer o download da pessoa ou objeto no outro lugar. Sempre fazem concursos para alguém trazer uma solução para esse problema, mas, até agora, nada.
— O que é considerado longa distância de teletransporte?
— Daqui até a capital já não é seguro.
— Entendi. Então nada de ir para a Europa tomar um café em Paris? — A decepção no olhar de Val era perceptível mesmo de longas distâncias.
— Não. Até porque não é essa farra danada de sair aparecendo nos lugares, não. Você precisa de autorização para fazer o download no local, de uma senha.
— Mesmo assim... — Val tentava tirar algo de positivo daquela notícia um tanto desanimadora. — Já seria uma solução para os congestionamentos de cidades grandes. Por que vocês não dividem essa tecnologia com o mundo externo?
— Normalmente a gente faz testes durante alguns anos antes de mandar para o mercado externo. Acredito eu que em mais uns 3 anos todo mundo vai poder usar.
— Bom, bom... — Uma fagulha de esperança surgiu no seu coração e no seu olhar. — E viagem no tempo? Vocês já fazem? Já testaram o suficiente?
— Sim, mas existem muitas regras para fazer essas viagens, você sabe como é. Toda uma questão de paradoxo temporal, efeito borboleta. Aí, sim, Hollywood acertou. — Flávia virou a cadeira de rodinhas e alcançou um pacote de Cheetos tubo que estava na mesinha lateral. — Você está com fome? Eu estou com uma fome que não passa.
— Um pouquinho, mas eu vou guardar para comer a coxinha da cafeteria, que me foi muito bem recomendada. — A professora abriu o pacote de isopor saborizado e ofereceu a Val, que recusou educadamente. — Então, também precisa de autorização para viajar no tempo?
— Precisa do laudo de um psiquiatra. Viajar para o passado tem toda a questão de encontrar consigo mesmo, mudar um objeto de lugar e, de repente, você está beijando a sua tia. Para o futuro, todo mundo acaba querendo ver como e quando seria a própria morte, o que gera obsessão em muita gente. — O cheiro de queijo cheddar industrializado tomou conta do ar. Val salivou. — As pessoas, muitas vezes, param de viver para evitar a morte. Isso dá muita confusão... Se tornou algo tão burocrático que o pessoal foi parando de viajar no tempo.
O brilho nos olhos de Percival nem existia mais. Sua postura era derrotada, com os ombros e os cantos da boca caídos. O cheiro do salgadinho não ajudava em nada na sua baixa de moral. De repente, uma questão mais do que importante surgiu em sua mente e resolveu arriscar uma última vez.
— Já resolveram a questão da desigualdade social? — Sorriu enquanto estendia a mão em direção ao pacote de Cheetos tubo.
— Impossível. Bruxos ainda são humanos e, como boa parte dos humanos modernos, ainda acreditam que o capitalismo é um fenômeno da natureza irrefutável e imutável.
— Pelo menos os neoliberais não existem por aqui...?
— Existem aos montes. Um tal de primo não sei das quantas lançou um Ashalabashurias durante uma live de madrugada que lavou o cérebro de muita gente à distância.
— E não dá para deslavar?
— Muito difícil. Mais fácil e rápido esperar a primeira desilusão econômica. A reversão é automática.
— Então, deixa eu ver se entendi direito. Vocês não têm cura para o câncer, não voam em vassouras, não viajam no tempo e só usam o teletransporte para pequenas distâncias... E ainda tem bruxos neoliberais.
— Isso. Entendeu direitinho.
— Qual a outra grande vantagem de ser bruxo?
— O latte da cafeteria daqui é excelente.
— Bom — Val levantou-se e espalmou as mãos, limpando-as dos farelos radioativos. —, eu acho que já ouvi tudo que precisava. Agradeço o seu tempo, Professora Flávia. — Estendeu a mão para cumprimentá-la.
— Imagina, fico às ordens. — Ela o cumprimentou ainda sentada, deixando o punho da sua camisa marcado de amarelo cheddar. — Feche a porta ao sair, por favor.
Saiu de lá e caminhou em direção à cafeteria sem nem pensar duas vezes. Pediu uma coxinha de frango com catupiry e um latte, ignorando a marmita que o acompanhou durante toda a aventura. Em poucos minutos, recebeu ambos quentinhos no balcão e os levou para uma das mesas feitas de troncos de árvores, onde se sentou.
Começou pela coxinha. Na primeira mordida, ouviu o delicioso som da casquinha crocante se quebrando. Uma perfeita proporção de casca, massa e recheio tomou conta da sua boca. O recheio da coxinha, composto de frango vegano finamente desfiado e catupiry, preencheu todos os espaços da sua boca, fazendo festa nas suas papilas gustativas. Abriu os olhos em espanto com tamanha cremosidade. Terminou de comer a coxinha, uma mordida a cada inspiração. Parecia um animal faminto devorando uma carcaça.
Tomou um gole do latte e seu corpo foi tomado por uma indescritível sensação de alívio. Sim, alívio, pois finalmente achara o café perfeito. Parecia que tinha sido abraçado simultaneamente por diversos bichinhos de pelúcia, seu coração deu uma diminuída no ritmo brevemente, para depois retornar tunado pela adrenalina. Sua face corou e, de repente, sentiu vontade de pôr em prática todos os projetos que deixara de lado nos últimos anos, por não ter tempo ou ânimo para realizá-lo. Um verdadeiro afago na alma.
Ainda parcialmente em êxtase, confuso pelo tsunami das sensações maravilhosas, juntou seu lixo e o levou até a lixeira. Cambaleante, foi ao caixa e pediu mais três coxinhas e um latte para viagem. Pegou o pedido, ainda não totalmente recuperado da aventura e tomou o caminho de volta ao prédio principal. Nos poucos metros que separavam a cafeteria da recepção, abriu o pacote e comeu mais uma coxinha. Chegou à varanda atrás do arco e, ainda mastigando e sem educadamente cumprimentar, perguntou:
— Pâmela, onde assino para me inscrever no curso de verão?
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