Capítulo 177 - Simplicidade
Numa tarde fresca de primavera, João Carlos Borges Cavalcanti nascia em Resende. Como todo descendente de família tão tradicional, João teria acesso a todo o tipo de informação, de cultura e de influência. O famoso berço de ouro.
Nos seus primeiros aniversários, João sempre ganhava todo tipo de brinquedo desenvolvido especificamente para crianças da sua idade. Todos os materiais eram atóxicos, todas as arestas abauladas, todas as atividades eram pensadas para estimular do que seria uma tão brilhante personalidade no futuro.
Mas ele não queria o super brinquedo interativo, cheio de botões, luzes piscantes e áudios em 3 idiomas. Ele queria o papel do embrulho. Era gostoso de amassar e fazia um som legal ao ser rasgado.
Por volta dos 10 anos, João Carlos que, além de ter sido abençoado pelo acaso de ter nascido numa família abastada, ainda havia sido abençoado pela genética e já demonstrava todo o potencial de beleza que ostentaria por toda a vida. Fora chamado por inúmeras agências de modelos e atores mirins para estrelar propagandas, novelas e longa metragens e poderia ter se tornado muito famoso.
Mas João não queria a fama, o reconhecimento nacional ou viajar o Brasil fazendo campanhas. Ele queria brincar de Comandos em Ação com o Guilherme, seu melhor amigo do condomínio. Eles imaginavam aventuras incríveis e se divertiam muito.
Já na adolescência, João Carlos tinha todas as meninas do colégio babando e suspirando por ele a cada vez que passava pelos corredores. A Joana, a Maria Fernanda e inclusive a Larissa, aquela menina bela que todos os meninos desejavam. Todos os seus amigos o empurravam para essa última.
Mas ele não queria a menina morena, de cabelos castanhos levemente ondulados que caiam suave e firmemente sobre os ombros e com um rosto de boneca tão perfeito que mais parecia ter sido esculpido em mármore por Michelangelo. Ele queria a Aninha, que era um pouco desengonçada e muito estabanada, não tirava as melhores notas e nem era a mais bonita. Ele a achava engraçada e gostava muito dela.
Ao terminar o colégio, João teve aberta a oportunidade de estudar em Harvard e se tornar um grande empreendedor. Sairia de lá com um futuro ainda mais promissor e, de quebra, seu pai ainda teria alguém de confiança para ajudá-lo na presidência da firma.
Mas ele não queria ser presidente de nada. Ele quis estudar letras e literatura. Ele se identificava mais com essa área do que com a de negócios.
Quando ia a jantares com seus pais, a maior parte das vezes por mera obrigação social, eles o levavam nos mais diversos e refinados restaurantes da cidade. No cardápio, as iguarias francesas e espanholas reproduzidas com exclusiva fidelidade pelos mais variados chefs, todos renomados.
Mas João Carlos não queria Escargot nem Paella. Ele queria macarrão ao alho e óleo pois lembrava dos almoços de domingo na casa de sua vó materna e ele se sentia bem todas as vezes que comia.
Após formado com honras em letras, seu currículo magicamente se espalhou por inúmeras multinacionais, que estariam dispostas a pagá-lo o que um Borges Cavacanti é digno de receber. Fora chamado para os mais diversos cargos executivos que exigiam, além das excelentes notas que tirara na faculdade, uma excelente recomendação também.
Mas ele não queria trabalhar no mundo corporativo, nem ganhar muito dinheiro. Ele queria ser professor de português. Achava um trabalho digno e gratificante.
Mas ele não queria trabalhar no mundo corporativo, nem ganhar muito dinheiro. Ele queria ser professor de português. Achava um trabalho digno e gratificante.
João Carlos ouviu a vida inteira que era capaz de muito mais, que merecia muito mais, que chegaria muito mais longe. Mas ele não queria mais de nada. Ele não queria o que os outros achavam que era melhor para ele. Ele só queria ser feliz.
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